Belchior, como um pai

Tinha em Belchior um amigo, um companheiro, nos dias tristes… Não importa quando ou como, ele estava lá, nas suas músicas, com um verso de alento, um conselho nas letras, um refrão de acolhida.

Recordava-me a dor das repetições, quando a vida ia mal: “Perceber que, apesar de termos feitos tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos.”

Há não muito tempo, não muito longe daqui, foram as “Paralelas” de Belchior que seguiram ao meu lado, em cada luz de mercúrio, praças, viadutos…

É estranho pensar que alguém que eu nunca conheci, na verdade, partiu. Parece que eu ainda teria chance de agradecê-lo por essas breves companhias quando ouvia suas canções.

Belchior, morremos no ano passado. Mas esse ano eu não morro. Nem você: continua lembrando que, talvez, eles venceram e, de fato, ainda há perigos na esquina. Mas você disse e continuará a dizer, Belchior: o novo sempre vem.

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Como vai seu coração?

what matters most is / how well you / walk through the / fire.
— Charles Bukowski

no decurso dos meus piores dias
nos bancos das praças
nos cárceres
ou vivendo com
putas
eu sempre tive este certo
contentamento —
não chamaria de
felicidade —
era mais um interno
equilíbrio
que servia para
o que houvesse ocorrendo
e isto ajudava nas
fábricas
e quando relacionamentos
iam mal
com as
garotas.

isto ajudava
através de
guerras e de
ressacas
de brigas nos becos
e
hospitais.
a despertar em um quarto barato
em uma cidade estranha e
abrir a cortina —
este era o mais louco tipo de
contentamento.

e andar pelo chão
até um móvel velho com um
espelho partido —
ver a mim mesmo, feio,
gargalhando de tudo isso.

o que mais importa é
o quão bem você
percorre o
fogo.

(Tradução do poema “How is your heart?”, de Charles Bukowski.)

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Bella Ciao e a luta contra a reforma da Previdência

No final do século 19, camponeses italianos costumavam cantar uma música que falava das duras condições de trabalho no campo: “Bella Ciao”, de autoria desconhecida. Mais tarde, durante a Segunda Guerra Mundial, a canção foi adaptada e se tornou um dos hinos entre os grupos que resistiram ao fascismo, sobretudo anarquistas.

No anarquismo, há uma tese, na vertente sindical, que diz que o capitalismo seria derrotado por uma greve geral. Sindicatos de trabalhadores no Brasil convocam nesta quarta-feira (15) uma greve geral, iniciada pela manhã com a paralisação do transporte público e seguida pela adesão de outras categorias em manifestação às 16h, para ir contra a reforma da Previdência e defender os direitos trabalhistas.

Os direitos trabalhistas, no Brasil, como os conhecemos, ao contrário do que se convencionou dizer, são fruto da luta dos sindicatos de trabalhadores. Há 100 anos, militantes anarquistas, organizados no Comitê de Defesa Proletária, reivindicavam, em outra greve geral (de 1917), pautas como jornada de oito horas, adicional noturno e direito a férias.

Neste ano, fala-se muito do centenário da Revolução Russa. Mas os eventos desta quarta remetem muito mais ao centenário da Greve Geral de 1917 e o legado que o anarquismo, palavra tão desbundada e maltratada, tem a oferecer aos trabalhadores brasileiros. Não é a derrota do capitalismo em jogo, é claro, mas a defesa de um mínimo para se poder viver dentro dele.

O anarquismo veio ao Brasil, em boa parte, trazido por italianos, muitos deles fugindo do fascismo. As duras condições de trabalho de um século atrás podem voltar –e é esta a medida que as ditas “reformas” podem trazer ao país. Bem, eu, da minha parte, trago aqui o hino da resistência, “Bella Ciao”, na versão da banda italiana de ska, Talco. Canção que diz, em tradução livre: acordei e vou à luta.

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Logan: uma distopia de alerta

Se há algo que eu recomendaria assistir hoje nos cinemas, este seria Logan (James Mangold, 2017). Mais do que um filme de herói, sobre Wolverine, o mutante batizado com o nome que dá título à obra, o longa resgata um tema que é fundamental em toda o universo de HQs dos X-Men, a saber, a questão das minorias. Neste mundo, ser mutante, portanto minoria, corresponde aos mesmos estigmas, e problemas semelhantes, a que vemos ao tratar das minorias do mundo real.

O longa se passa em 2029, depois que os mutantes, por uma sucessão de eventos, foram eliminados ou estão desaparecidos, uma distopia de alerta, constatados a crescente de discursos xenófobos, políticos nacionalistas e da decadência dos paradigmas da globalização e do multiculturalismo nos dias de hoje. Neste futuro perigosamente próximo, os mutantes que restam se escondem ou tentam levar uma vida à margem do dia a dia comum, sem que sejam identificados e, assim, perseguidos.

Charles Xavier (Patrick Stewart) e Logan (Hugh Jackman) no filme (crédito: Divulgação/Fox Film)

Logan, tendo nascido com mutação que regenera seu corpo com velocidade e o retarda o envelhecimento, torna-o não só um sobrevivente do cataclisma dos mutantes, como um homem que já viveu mais do que qualquer outro sobre a terra —nos quadrinhos, estima-se que ele tenha nascido entre meados e final final do séc. XIX. Hugh Jackman, no papel principal, após interpretar Wolverine por oito vezes no cinema (nove com “Logan”), sobra ao interpretar uma existência que carrega angústias, desilusões e dores de um homem que viveu quase dois séculos, perdendo entes queridos e sentindo devagar o passar do tempo.

O temido Wolverine de outrora agora dá lugar a um Logan no limite de despedaçar psicologicamente, dopado com analgésicos e sempre acompanhado de uma garrafa de uísque. No único laço afetivo que mantém, cuida da única figura que já teve mais próxima de um pai, o antes visionário e militante, mas no momento velho e demenciado, professor Charles Xavier (Patrick Stewart, que está brilhante), mutante com poderes psíquicos, e um dos idealizadores e principal líder dos X-Men, que lutou a vida inteira pela tolerância e convivência pacífica entre humanos mutantes e não-mutantes.

Nonagenário, Xavier é o símbolo dos sonhos que, alcançada a distopia, envelheceram. Um “pai” que, em certo momento, ouve do “filho” Logan: “Charles, o mundo não é mais o mesmo”.

Afinal, o mundo, além de sufocar os mutantes, persegue refugiados, assedia tradicionais famílias de agricultores para defender o monopólio da produção rural de transgênicos e, mais do que nunca, funciona inescrupulosamente com o lobby de grandes empresas sobre agentes de Estado. Entre os antagonistas está um jovem descolado, com modificações corporais, tatuagens, branco e com sotaque de redneck (alguém pensou em um eleitor de Donald Trump?), que trabalha para um laboratório de pesquisas genéticas, perseguindo os mutantes que restam e fazendo qualquer coisa para cumprir seus trabalhos, assediando policiais e submetendo todos à sua, ou melhor, à vontade de seus patrões.

Nem tudo está perdido, porém. Um encontro abre a contingência necessária para que a situação mude. Uma menina com o mesmo tipo de mutação de Logan, Laura (Dafne Keen), vai ao encontro dele e de Xavier. À medida que a história da jovem vai se desenvolvendo, entre perseguições, fugas, lutas, violência e mortes, mas muitas mortes, o novo vai se revelando. O angustiado Logan, então, vai tentando, ao lado de Xavier, reencontrar uma forma de sobreviver com dignidade e tentar projetar outro futuro.

Sobre a violência, faço uma crítica necessária, já que, por mais que seja elemento fundamental da existência do próprio personagem Wolverine, portanto inescapável a qualquer história a respeito dele, torna-se performática e exagerada demais. A violência extrapola o argumento do filme, ao colocar crianças com não mais do que 12 anos, matando, morrendo, sangrando e expostas a qualquer tipo de atrocidade. Na minha opinião, erro grave que limite o longa a ser apenas um bom filme, e não “obra-prima”.

Quem se interessar, pode se contentar por enquanto com o trailer que coloco abaixo, acompanhado da música “Hurt”, originalmente dos Nine Inch Nails, mas aqui na versão que foi imortalizada por Johnny Cash.

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mercurial inferno

entre os maiores mistérios que sonha nossa vã filosofia, alguém há de explicar do que se trata o mercurial inferno astrológico de um geminiano. próximo ao dia do nome deste autor, palavras se embaralham na tela do computador, ao mesmo tempo em que ideias emergem de forma desconexa; enquanto isso, o limiar da entrega de um trabalho especial está cada vez mais próximo. em meio a tal desordem, entretanto, só é possível pensar nos olhos da menina com que encontrei no elevador. é como se a resposta residisse, em si, no problema, tópico das palavras que aqui se apresentam. na rota entre dois olhares, está a saída. de fato, Nietzsche estava certo, pois assim dizia Zaratustra. é preciso ter o caos dentro de si para dar à luz uma estrela cintilante.

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Das peças que o desejo prega, ou da arte de inventar escritores

Vem cá, disse-me n’outro dia um amigo meu. Ele precisava de conselhos, saber como lidar com as contingências da vida. Queria certificar-se de que não estava enganado, a hora, pois, era dessas em que não se sabe muito o que está se passando.

Há algum tempo, ele se deparava com uma garota na rua. Trocavam olhares enquanto seguiam em sentidos opostos. Encontravam-se nas mesmas esquinas, caminhavam pelas mesmas faixas de pedestres, seguiam por baixo dos mesmos semáforos.

Ele gostaria de tentar contato. Perguntava-me se poderia haver interesse da parte dela. Duvidava se tudo não seria mera peça de ficção, dessas que o desejo costuma nos pregar.

Lembrei-lhe que o método é simples: uma dúvida só é sanada se colocada à prova. Ele precisava agir. E eu sugeri que um livro seria uma forma amistosa de iniciar diálogo.

A boa literatura rende conversas que tendem ao infinito, afinal, livros são, além de outras coisas, infindáveis manuais de “como conversar com alguém”.

Camembert. Era o que ele me dizia. Tão logo conversamos, e ele me assegurou que a garota segurava um livro com este autor. A gradação, então, prosseguiu: Camembert, França, literatura, filosofia.

O caminho estava certo. Eu disse que já passava da hora de ele ler tudo do tal do autor francês que transitava na porosa fronteira entre literatura e filosofia.

Foram dias de busca. Bibliotecas, Google, redes sociais… Ele nada encontrava. Não sabíamos por que, mas as palavras Camembert, França, literatura e filosfia, juntas, não indicavam nada.

Fracassamos.

Enquanto isso, eu me desculpava por não ser um bom conselheiro.

Na ocasião seguinte em que ele encontrou a garota, ela estava com o namorado. Parecia recente, ele me dizia, entristecido.

Tudo, portanto, não passava de obra de ficção do desejo. Esta história era, enfim, uma grande mentira.

A bem da verdade, então devo dizer, meu amigo nunca encontrou a garota na rua. Ambos trabalham a algumas baias de distância, comigo, sim, no mesmo escritório.

No entanto, ele realmente veio me pedir conselho, já que havia, sem querer, dado um like na garota em um desses aplicativos de encontro virtual. Meu amigo nunca teve o menor interesse por ela e temia a possibilidade de o fato gerar algum constrangimento.

No aplicativo, o perfil da menina dizia: “adoro Camembert”. E da constatação vieram equívocos como “eu, se fosse você, leria tudo do Camembert”.

Imaginei eu, porém, o que seria se esta história desenrolasse. Por que não se deixar levar por uma peça de ficção? A boa literatura tende ao infinito. E, com frequência, a verdade das coisas é desinteressante demais.

Ah!, para quem não sabe, como eu não sabia, e daí a origem desta história, Camembert é um queijo e, até onde se sabe, nunca escreveu literatura ou filosofia. Pelo menos, até agora.

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(sem título)

.

Esta história acabou. E, constatado isso, começo por um ponto final. Inicio por onde um texto deveria terminar, escrevo um prelúdio que, a princípio, pode soar como paradoxo. Não o é, contudo. As mesmas palavras, o mesmo aforismo, com que abro este parágrafo se repetem idênticas desde esta manhã, desde o primeiro nascer do sol após dizê-las pela primeira vez. Esta história acabou. E, se não houvesse acabado, eu jamais teria de onde começar este texto, três palavras em ordem direta; oração de período simples; pronome, substantivo, verbo; pretérito perfeito; fim.

Noite passada, vi-me obrigado a admitir para meu amigo à mesa do bar. Insistia ele em dizer que ainda haveria o que escrever, quiçá um novo capítulo em aberto. Tive de lembrar: esta história acabou. E assim o final tornou-se verbo pela primeira vez –embora só nessa manhã, enquanto a frase ecoa em minha cabeça, eu realize, enfim, que a última pedra sepulta o lugar onde antes houve o amor. Companheiro!, ele resiste à sórdida conclusão. Tenta me convencer de qualquer alternativa. Eu repito, portanto: esta história acabou. Já não existe mais espaço naquela carta que, escrita à tinta mas despedaçada em três, nunca encontrou destinatário.

Sem título, eu dizia…

…a fragrância da moça bonita que passa por mim tem o seu mesmo cheiro de outrora. […] Cada passo meu em sua direção são dois seus no mesmo sentido. Cada vez mais longe. E longe, e longe… Sobram motivos para se afastar na medida em que faltam para me ver. Queria, preciso, te encontrar. Ver-te sorrir. Ouvir os murmúrios entre nós. Tocar seu corpo com toda a vontade que só para ti eu guardava. Experimentar seus gostos, humores doce e amargo. Cheirar teu perfume quando se mistura ao meu. Queria tudo isso mais uma vez.

[…] Agora, contudo, imagino que estejamos mais e mais e mais e mais e mais distantes. Não consigo uma desculpa razoável para mantermos sequer um diálogo. […] Eu mal tenho como seguir em frente. Quem sou eu sem esta história? […] Me desculpe as tolices, desculpe, por favor, as brigas, meus fantasmas, o horror do fundo do abismo. Ainda lembro dos seus olhos quando falava “da gente”.

[…] Esse mistério, seu mistério, sempre me cativou. Lembro dos seus ombros, do gosto deles; da minha boca deslizando, te beijando para eu enfim dizer o quanto são bonitos. De como eu me apaixonei também por eles. […] Jura que sentiu minha falta. [….] Sinto muito. Por tudo. Por esta carta. Pelos machucados, os meus e os que te causei. Sinto mesmo…

Palavras inócuas, guardadas por dois anos no fundo de uma gaveta embolorada com a esperança de que ali, enfim, fossem esquecidas. Releio-as e, agora, reconheço nelas apenas o valor literário. Não há razão, ou desrazão, para remetê-las, haja que o aforismo se repete em meus ouvidos: esta história acabou. Parágrafo por parágrafo, impressiono-me com a intensidade do que ali esteve retido, à tinta preta, em letras corridas. Não foram poucas as oportunidades de tentar reverter o infortúnio, o fato de que uma terceira pessoa, não destinatária, rasgou, sem o mínimo direito, a carta escrita à mão. Contudo, esta história acabou. E, ao raiar do sol, realizo a sutil beleza que são os últimos grãos da ampulheta da existência de um amor.

Sigo pelas vias da cidade. As paredes coloridas, as coberturas dos prédios, as largas e espaçosas calçadas, os pontos de ônibus e as estações de metrô, saturadas de lembranças. Memórias, entretanto, sem alegria ou tristeza. Recordações de vidas que por ali passaram e, hoje, percorrem, cada uma, seu caminho. A rua da tua casa, apenas mais do cimento e asfalto que ocupam a vizinhança. O muro onde nos jogamos abraçados com as mãos perdidas dentro das roupas do outro, tijolos e tinta branca. Persistem as flores na copa da árvore frondosa embaixo da qual nos perdíamos em discussões. A história, porém, acabou.

Quem sou eu sem esta história? De certa forma, a dúvida persiste. Não é impertinente. Duvidar nunca o é; nunca o foi. Incertezas me fizeram constatar o fim. Despertam mais dúvidas, entretanto. Quem acabou? Quando? Onde? Como? Por quê?

O vento, carregado do sereno da noite, contra o meu rosto. Quem sou eu? Um vulto de casaco negro. Caminho pelos corredores de um antigo convento paulistano, prédio velho onde uma cruz sabe de segredos, sussurros às sombras do pátio de um deus-qualquer-todo-poderoso. Ventania. Eu falava de ombros. Miro um ombro esquerdo para fora do decote de um delicado vestido. Pele fina, poros arrepiados, pelo frio, pela lembrança de lábios que descem pelo cangote desde a orelha. Embebem. Sujam. Escorregam. Cessam. Dois rios inteiros. Afastam-se. Olham-se. Então se beijam.

Na profundidade dos olhares, em uma infinidade de pessoas, descubro reminiscências. Esta história acabou, mas já se diz: de tudo fica um pouco. Fragmentos perdidos, ora oblívios, ora lembranças. Nos olhos de outras pessoas encontro outras partes do universo dentro do qual me perdia. Astros e corpos celestes, a cada olhar. Constelações inteiras. Escuridões. Buracos negros, tão mais profundos quanto maior a intensidade do devir. Se, enfim, esta história acabou, outras devem ter início. E, portanto, agora outro começo eu hei de escrever:

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