Revisitado

Às vezes, queria reescrever alguns textos. Como se, ao traçar sobre aqueles papéis já rabiscados, pudesse entrelaçar as palavras, e os afetos, de outrora, resolvendo um impasse entre linhas do passado e do presente. Buscaria, em antigos caracteres, sinais de sentimentos que se repetem, ainda que, ontem e hoje, estes não sejam os mesmos. Revisaria uma escrita reminiscente, explorando velhas letras. Faria uma arqueologia do autor.

Ele era outro, eu era outro. Tu, das motivações desta busca, mal imagino. Eras outra, certamente. Não vislumbrávamos nos conhecer.

Quando olho para as palavras, todavia, reencontro nelas e descrevo algo próximo de quem fui, de quem sou… De como fiquei. E gostaria que fosse possível, ao reescrever em um registro remoto, tornar o sobrescrito dedicado a ti.

Como dito muito antes: há um afeto que insiste em retornar, dessa vez, porém, revisitado, agora, diferente. Ele não é o mesmo. Mas o texto, o carinho, revolta-se dentro de mim, hoje, do passado, em direção ao presente — quiçá, ao futuro. Envolve-me. E quero envolter-te nele, ou melhor, envolvê-lo, devolvê-lo a, em nós dois. Deste período em diante, as letras no papel são antigas, mas, com novos contornos, têm traços que transcendem o tempo:

Carinho

Sem atenção o dia inteiro, tinha, portanto, a impressão de que as coisas voltavam a ser como antes, quando não a conhecia. Era um silêncio inoportuno, achava; uma falta até então inédita. Como podia senti-la se, afinal, todos os últimos dias se passaram sem nada daquilo?

Estava ansioso, muito mais que o de costume. Mal conseguia completar as tarefas planejadas. Dificultavam não só as formas usuais de dispersão do dia a dia, bem como o jeito distraído de sempre, mas, além disso, um afeto que insistia em retornar.

Nem havia uma semana desde que a conhecera, e, entre os círculos sociais, costuma-se dizer que sete é um número significativo nestes casos, como este havia de ser. Mas, se o tempo medido era curto por um lado, por outro a intensidade jamais poderia se resumir a uma única noite de inverno.

“Você tem coragem”, ela disse. Coragem, um afeto mobilizador. Coragem, amiga da estupidez, sabia, era o que tinha em mãos. Precisava agir.

Duas mensagens. Sem sucesso. Uma ligação. Não podia atender. A ansiedade só aumentava. Houve um ponto em que mal conseguia, em casa, ficar sentado. Andava de lá para cá, abria a geladeira com frequência, a esmo.

O relógio, porém, indicava que chegava a hora de um compromisso. Do lado de fora, uma série de coisas que a cronologia costuma considerar como muito se sucedeu.

Quando enfim estava de volta em casa, ela havia respondido as mensagens. Era tempo das doze badaladas. Puxamos conversa. E, enquanto sentia toda a ansiedade se diluir em meio à alegria de nos falarmos, ela mencionou a palavra que me faria nomear este texto.

Passaria um dia inteiro. Haveria o trabalho, o estudo, o transporte público, o caos do cotidiano, as batidas policiais, as notícias de crime, os jogos da copa, a fome, o cansaço, as investidas da rotina em nos derrotar, mas, ao fim do dia, teria um pouco daquilo, carinho. Não precisava de mais nada.

São palavras antigas, como disse. Entretanto, persistem dentro de mim e despertam como novas. Há, nelas, um querer: sublinhado, sobrescrito, rasurado, tentando rever-se desde que te conheci.

Eu falava de carinho. Ele não está apartado de outros sentimentos. Eu falava também de ansiedade, de expectativa, de desejo. De uma multiplicidade de afetos aguçados por um encontro, um desencontro, o que quer que seja, um reencontro. De tudo que volta, querendo de novo, buscando de novo, enquanto estou ciente de que, talvez, o carinho não seja o único, mas, sim, o primeiro satélite a despontar em uma constelação de sentimentos que surge no céu noturno, tal como a lua cheia acompanhada das estrelas quando nos conhecemos.

Esta crônica, aquela crônica, estas palavras, aquelas palavras, tudo isto, são, eu sei, só palavras… Mas nunca permanecem no papel como letra morta. Estão vivas. Posso resgatá-las do paradoxo entre o que foi escrito e o que pretendo escrever.

Traços riscados e traços por fazer formam nós. Quem são os nós? O que somos nós? Amarras de duas existências que se tocam, como pernas que se entrelaçam antes, durante e depois de um orgasmo. Letras que ganham continuidade e seguem tais quais as linhas que faço com meus dedos sempre que você está na minha cama. Escapam como uma corda, deslizando pelo desconhecido, à procura, quem sabe, de um futuro…

Tu pedias um contexto quando conversamos, certa vez. Te deixo um texto.

E, se sentes que entrego palavras ao vento, que foram e já passaram, endereçadas a um tempo que não volta mais, fixo uma marca aqui, afinal, datando esta crônica, para que fique clara a minha dedicatória.

Para TL
em 27 de julho de 2018
De Guilherme Zocchio

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O texto outro da madrugada

Sentada, vira a papelada sobre a mesa. Flap. Toma uma folha em mãos. Flap, flap. Observa. Devolve o papel e começa a digitação. Os dedos dançam em cima do teclado, movidos pelo ritmo do raciocínio. Tec, tec, tec. Na tela do computador, letras se tornam palavras; palavras, frases; e frases, parágrafos. Aos poucos, costura-se um texto, tal como um crochet, ponto por ponto, linha por linha. Observava, e agora as observações ganham corpo; têm adversações, coordenações, subordinações; aferem, sugerem, concluem.

Uma pausa, e as pontas dos dedos folheiam os papéis outra vez. Na mão direita, um prontuário médico. Na esquerda,  o dedo indicador, em direção aos óculos, ergue as duas lentes de circunferência larga, sustentadas por uma fina armação marrom dos óculos sobre o nariz. Está em silêncio, pensativa. Nas folhas, vê afirmações com as quais não concorda. Contesta o que lê. Não é aceitável, diz. Anuncia o que deveria ser corrigido, reconhece o que já não se pode alterar —à caneta— e os dedos voltam a digitar.

Tec, tec, tec é a trilha que orienta o crescimento do corpo que se desenvolve como texto. Levemente cerrados, olhos cor de mel compenetrados. O teclar para, e a mão se esfrega no queixo. Ainda não está bom, sugere pensar neste momento. A cabeça se aproxima da tela. Tec, tec. Uma frase é apagada, e outra toma lugar. É como se, a cada revisão do que escreveu, buscasse conciliar, nas palavras, a precisão cirúrgica com a beleza estética, extraídas ambas de um parecer médico.

São composições de frases maquínicas, que reduzem histórias, e suas multiplicidades, a aspectos puramente técnicos, saberes e poderes frios com os quais biografias se restringem a meras categorias protocolares. Não é, porém, o que se passa com aqueles dedos digitando. Há uma narrativa, além do relato, e isso, portanto, abre o sentido do amontoado de palavras denso, contraditório, pulsante… Eros existe por ali, onde brota de uma sucessão de comportamentos, de fatos, que se repetem, em verbos no gerúndio.

Há dois corpos próximos da mesa do computador. Um deles —o texto— cresce, e o outro o faz crescer. Este, na verdade, é esta, corpo feminino, ou melhor, ela, que está sentada, digitando. Tem não só as mãos com os dedos que teclam, queixo, nariz ou olhos cor de mel que enxergam através de óculos grandes; tem um rosto, com sobrancelhas finas, lábios rosados que se esticam para um sorriso cheio e, com frequência, coram a região das maçãs, inscrita em uma área desenhada por traços de delicada angulação obtusa.

Ela tem uns braços, ombros, seios, abdômen. Tem pernas compridas: coxas, quadris, gêmeos, a pele morenada pelo sol; membros que se cruzam e descruzam enquanto leva a mão ao queixo ou ajeita os óculos; pernas que se abrem e saem por debaixo da saia.

O corpo que cresce continua a crescer com palavras digitadas. Tec, tec, tec. Cresce assim que se sabe mais da história sobre a qual se escreve. Cresce à medida que a vida de uma paciente psiquiátrica, tema do texto cuja escritura inspirou este texto outro, continua a ser vivida, com dor, júbilo, angústia, prazer, loucura. Cresce infinitamente; o assunto do corpo é inesgotável, e as palavras naquela tela de computador assim o denotam. Cresce, enfim, porque alguém o faz crescer; cresce, afinal, porque ela o está escrevendo.

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Haikai da crueldade

domingo na minha casa
não quis dormir
saiu na madrugada
o perfume no travesseiro
partiu… partiu meu coração…

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Belchior, como um pai

Tinha em Belchior um amigo, um companheiro, nos dias tristes… Não importa quando ou como, ele estava lá, nas suas músicas, com um verso de alento, um conselho nas letras, um refrão de acolhida.

Recordava-me a dor das repetições, quando a vida ia mal: “Perceber que, apesar de termos feitos tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos.”

Há não muito tempo, não muito longe daqui, foram as “Paralelas” de Belchior que seguiram ao meu lado, em cada luz de mercúrio, praças, viadutos…

É estranho pensar que alguém que eu nunca conheci, na verdade, partiu. Parece que eu ainda teria chance de agradecê-lo por essas breves companhias quando ouvia suas canções.

Belchior, morremos no ano passado. Mas esse ano eu não morro. Nem você: continua lembrando que, talvez, eles venceram e, de fato, ainda há perigos na esquina. Mas você disse e continuará a dizer, Belchior: o novo sempre vem.

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Como vai seu coração?

what matters most is / how well you / walk through the / fire.
— Charles Bukowski

no decurso dos meus piores dias
nos bancos das praças
nos cárceres
ou vivendo com
putas
eu sempre tive este certo
contentamento —
não chamaria de
felicidade —
era mais um interno
equilíbrio
que servia para
o que houvesse ocorrendo
e isto ajudava nas
fábricas
e quando relacionamentos
iam mal
com as
garotas.

isto ajudava
através de
guerras e de
ressacas
de brigas nos becos
e
hospitais.
a despertar em um quarto barato
em uma cidade estranha e
abrir a cortina —
este era o mais louco tipo de
contentamento.

e andar pelo chão
até um móvel velho com um
espelho partido —
ver a mim mesmo, feio,
gargalhando de tudo isso.

o que mais importa é
o quão bem você
percorre o
fogo.

(Tradução do poema “How is your heart?”, de Charles Bukowski.)

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Bella Ciao e a luta contra a reforma da Previdência

No final do século 19, camponeses italianos costumavam cantar uma música que falava das duras condições de trabalho no campo: “Bella Ciao”, de autoria desconhecida. Mais tarde, durante a Segunda Guerra Mundial, a canção foi adaptada e se tornou um dos hinos entre os grupos que resistiram ao fascismo, sobretudo anarquistas.

No anarquismo, há uma tese, na vertente sindical, que diz que o capitalismo seria derrotado por uma greve geral. Sindicatos de trabalhadores no Brasil convocam nesta quarta-feira (15) uma greve geral, iniciada pela manhã com a paralisação do transporte público e seguida pela adesão de outras categorias em manifestação às 16h, para ir contra a reforma da Previdência e defender os direitos trabalhistas.

Os direitos trabalhistas, no Brasil, como os conhecemos, ao contrário do que se convencionou dizer, são fruto da luta dos sindicatos de trabalhadores. Há 100 anos, militantes anarquistas, organizados no Comitê de Defesa Proletária, reivindicavam, em outra greve geral (de 1917), pautas como jornada de oito horas, adicional noturno e direito a férias.

Neste ano, fala-se muito do centenário da Revolução Russa. Mas os eventos desta quarta remetem muito mais ao centenário da Greve Geral de 1917 e o legado que o anarquismo, palavra tão desbundada e maltratada, tem a oferecer aos trabalhadores brasileiros. Não é a derrota do capitalismo em jogo, é claro, mas a defesa de um mínimo para se poder viver dentro dele.

O anarquismo veio ao Brasil, em boa parte, trazido por italianos, muitos deles fugindo do fascismo. As duras condições de trabalho de um século atrás podem voltar –e é esta a medida que as ditas “reformas” podem trazer ao país. Bem, eu, da minha parte, trago aqui o hino da resistência, “Bella Ciao”, na versão da banda italiana de ska, Talco. Canção que diz, em tradução livre: acordei e vou à luta.

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Logan: uma distopia de alerta

Se há algo que eu recomendaria assistir hoje nos cinemas, este seria Logan (James Mangold, 2017). Mais do que um filme de herói, sobre Wolverine, o mutante batizado com o nome que dá título à obra, o longa resgata um tema que é fundamental em toda o universo de HQs dos X-Men, a saber, a questão das minorias. Neste mundo, ser mutante, portanto minoria, corresponde aos mesmos estigmas, e problemas semelhantes, a que vemos ao tratar das minorias do mundo real.

O longa se passa em 2029, depois que os mutantes, por uma sucessão de eventos, foram eliminados ou estão desaparecidos, uma distopia de alerta, constatados a crescente de discursos xenófobos, políticos nacionalistas e da decadência dos paradigmas da globalização e do multiculturalismo nos dias de hoje. Neste futuro perigosamente próximo, os mutantes que restam se escondem ou tentam levar uma vida à margem do dia a dia comum, sem que sejam identificados e, assim, perseguidos.

Charles Xavier (Patrick Stewart) e Logan (Hugh Jackman) no filme (crédito: Divulgação/Fox Film)

Logan, tendo nascido com mutação que regenera seu corpo com velocidade e o retarda o envelhecimento, torna-o não só um sobrevivente do cataclisma dos mutantes, como um homem que já viveu mais do que qualquer outro sobre a terra —nos quadrinhos, estima-se que ele tenha nascido entre meados e final final do séc. XIX. Hugh Jackman, no papel principal, após interpretar Wolverine por oito vezes no cinema (nove com “Logan”), sobra ao interpretar uma existência que carrega angústias, desilusões e dores de um homem que viveu quase dois séculos, perdendo entes queridos e sentindo devagar o passar do tempo.

O temido Wolverine de outrora agora dá lugar a um Logan no limite de despedaçar psicologicamente, dopado com analgésicos e sempre acompanhado de uma garrafa de uísque. No único laço afetivo que mantém, cuida da única figura que já teve mais próxima de um pai, o antes visionário e militante, mas no momento velho e demenciado, professor Charles Xavier (Patrick Stewart, que está brilhante), mutante com poderes psíquicos, e um dos idealizadores e principal líder dos X-Men, que lutou a vida inteira pela tolerância e convivência pacífica entre humanos mutantes e não-mutantes.

Nonagenário, Xavier é o símbolo dos sonhos que, alcançada a distopia, envelheceram. Um “pai” que, em certo momento, ouve do “filho” Logan: “Charles, o mundo não é mais o mesmo”.

Afinal, o mundo, além de sufocar os mutantes, persegue refugiados, assedia tradicionais famílias de agricultores para defender o monopólio da produção rural de transgênicos e, mais do que nunca, funciona inescrupulosamente com o lobby de grandes empresas sobre agentes de Estado. Entre os antagonistas está um jovem descolado, com modificações corporais, tatuagens, branco e com sotaque de redneck (alguém pensou em um eleitor de Donald Trump?), que trabalha para um laboratório de pesquisas genéticas, perseguindo os mutantes que restam e fazendo qualquer coisa para cumprir seus trabalhos, assediando policiais e submetendo todos à sua, ou melhor, à vontade de seus patrões.

Nem tudo está perdido, porém. Um encontro abre a contingência necessária para que a situação mude. Uma menina com o mesmo tipo de mutação de Logan, Laura (Dafne Keen), vai ao encontro dele e de Xavier. À medida que a história da jovem vai se desenvolvendo, entre perseguições, fugas, lutas, violência e mortes, mas muitas mortes, o novo vai se revelando. O angustiado Logan, então, vai tentando, ao lado de Xavier, reencontrar uma forma de sobreviver com dignidade e tentar projetar outro futuro.

Sobre a violência, faço uma crítica necessária, já que, por mais que seja elemento fundamental da existência do próprio personagem Wolverine, portanto inescapável a qualquer história a respeito dele, torna-se performática e exagerada demais. A violência extrapola o argumento do filme, ao colocar crianças com não mais do que 12 anos, matando, morrendo, sangrando e expostas a qualquer tipo de atrocidade. Na minha opinião, erro grave que limite o longa a ser apenas um bom filme, e não “obra-prima”.

Quem se interessar, pode se contentar por enquanto com o trailer que coloco abaixo, acompanhado da música “Hurt”, originalmente dos Nine Inch Nails, mas aqui na versão que foi imortalizada por Johnny Cash.

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