Alvorece na neblina dos montes

Talvez seja essa a grande hora que temos para realmente mudar o mundo… Pode ser que não também, é claro; mas acredito piamente que, mesmo que dentro de algum tempo nosso movimento não cresça, alguma coisa, não sei o que, vá mudar depois daquela acampada debaixo do viaduto do chá, no Vale do Anhangabaú. Somos poucos, pouquíssimos, é verdade. Estamos bem longe de sermos “as massas” do outubro vermelho. Mas conseguimos romper pactos de mediocridade e destruir zonas de conforto. E, aliás, nem de longe, somos só um punhadinho de estudantes –brancos, classe média, berço de ouro– revoltados com o mundo, sem qual nem porquê. Quem esteve no acampamento, por um instante que só, pôde ver moradores de rua, trabalhadores, também estudantes –é claro–, desempregados, uma infinidade de pessoas participando.

“Eu tive dois momentos felizes em minha vida: um quando meu filho nasceu; e outro, agora, quando eu soube dessa revolução”, comentou comigo um rapaz, pai de família, que estava acampado, enquanto carregávamos caixas com alguns suprimentos para o dia a dia da empreitada. Não sei se é, de fato, líquido, uma emoção forte e momentânea, o que nos move, como chegou a dizer o sociólogo polonês Zygmunt Bauman sobre os indignados do mundo inteiro, sobre uma felicidade e uma revolta voláteis. Sei é que, e disso tenho certeza, estamos reinventando a política, com um basta às representações, às assembleias manipuladas e viciadas, aos jogos maquiavélicos, às lideranças forjadas… um basta a todas as práticas da velha política! Por isso que não dá para dizer que não é nada, simplesmente; talvez até não seja possível dizer que é simplesmente líquido, é mais do que isso.

Dormimos ao relento por várias noites, enquanto o aparato policialesco do estado vigiava, pronto para punir, se iríamos levantar ou não as barracas do acampamento –coisa que uma lei municipal nos proíbe de fazer, é bom lembrar. E o frio do centro de São Paulo à noite é algo inescapável. Mesmo nos dias em que passo por lá e, no crepúsculo, cansado volto para dormir em casa, bate uma sensação de frio, por mais quente que esteja, para não esquecer o frio dessa cidade, o mesmo frio que os moradores de rua, que formaram em peso a comissão de segurança, sentem… É um frio que fica como uma espécie de cicatriz, uma lembrança –não hipotermia–, um quase calor, um toque delicado de tudo o que está acontecendo por lá, do tanto que, uma vez lá, é impossível se livrar do que está acontecendo, por mais frio que, em outro sentido, alguém seja.

E o momento agora é de carregar esse frio, central paulistano ou mundial, no fundo do peito, respirar fundo, e olhar para a frente, para o que eu, você, ele, o que nós podemos fazer, desde já e daqui em diante. Não é pouca a profecia do fim do mundo em 2012; esse fim, me parece, é o fim de um mundo, de um mundo tal qual o conhecemos. Não são poucos, além disso, os que veem o fim do capitalismo com a força das multidões: Negri, Hardt, mesmo Bauman, Wallerstein (que diz que “o capitalismo chegou ao fim da linha”) e tantos outros… Assim acredito que agora não é hora de ficar parado. Por mais que, no Brasil, por exemplo, talvez a crise esteja lá fora, as coisas andem bem (nem tanto assim, mas é o que dizem…), uma hora ou outra a nossa peça de dominó cai e, aí, para onde nós vamos? É a hora de exaltar o niilismo em nossos tempos, é a hora e vez do devir revolucionário de cada um.

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Sobre Guilherme Zocchio

Jornalista.
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