Sobre a corda bamba

Bêbado, cambaleio sobre a corda bamba; da embriaguez há, no entanto, um ponto que me joga à frente. E, se o medo da queda, quanto maior o salto, me impede, antes paro, e atiro-me novamente.

Bêbado, tal qual equilibrista, me tenta o animalesco. Inerte, todavia, maior é a chance da queda. O ímpeto, mesmo tímido, é, por sua vez, a minha única e própria vanguarda: vou-me. Entre o primitivo e o desconhecido, há o abismo.

Bêbado, porém, não me falta a escolha. E o equilíbrio depende de uma existência frágil. Mas, se o risco é grande, ainda é mais estreita a corda. Não me seguro e, pisando sobre o nada, com pé após pé danço, continuando.

Bêbado, cambaleante, equilibrando-me para frente, mesmo sóbrio, não me vou sozinho, contudo. Da besta que me tenta a estagnar, a acrobacia de uma nova escolha, um convite, o desejo de um toque quente em frente leva-me.

Bêbado, sinto que nada dura o mesmo tempo que se é capaz de mensurar; e que nada acontece no mesmo instante em que é concebido. Mas se chego ao desconhecido, me prega uma peça, rouba-me um beijo e me joga para trás.

Bêbado é um estado de espírito, não fisiológico, às vezes tão mais consciente que a própria sobriedade. Não me é, porém, um estado inconsciente: existo, logo escolho: equilibrar-me, voltar ou prosseguir. Prossigo, portanto; de onde não sei, mas em frente.

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Sobre Guilherme Zocchio

Jornalista.
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