Um pé no chão, outro ao ar

Dois homens conversavam num bar, depois de completo mais um ciclo da luta do dia a dia. Frente a frente, mostravam mais do que a aparência antagônica. Um que trajava um terno engomado, elegante, preto, com uma bela gravata e camisa branca por baixo mantinha uma postura firme e um olhar distante — vinha do escritório da firma. Um que ostentava cabelos rebeldes, bagunçados, uma camisa meio surrada, com uma bolsa de couro à meia altura e gesticulava inquieto aos lados apontava ao chão sobretudo — vinha, por sua vez, da rua, local de trabalho.

Entre estórias e histórias, conversavam projetos e projeções, dividiam sentidos e sentimentos.

— Também passei por uma fase difícil. Sabe que sempre fui muito competitivo. Isso me consumiu. Não conseguia mais dormir. Estava obsessivo com o trabalho, e cheguei até a tomar remédios de tarja preta.

— Nunca quis os remédios. Mas a barra também me foi pesada. Cheguei a quebrar coisas em casa. Não queria mais sair, conversar com ninguém. Foi difícil para quem estava comigo, todos foram muito fortes.

— Eu comecei a fazer terapia. Aprendi a lidar melhor com meus medos, minhas angústias. O espiritismo também foi muito importante para aprender que a dor ainda pode vir de outras vidas, outros tempos.

— A terapia me ajudou também. Mas resolvi parar. Me reconstruí da crise. Mudei. Abandonei o cristianismo e a crença em Deus. Descobri o existencialismo: entendi Sartre, aprendi com Nietzsche, deixe-me levar por Dostoiévski.

— Apesar disso, ainda acho que minha dor foi pequena, perto de muitos que vejo nas ruas todo dia pedindo, passando fome, lutando para sobreviver. Sinto pena. Queria ajudá-los.

— Cada homem, cada mulher, são dotados de potência, autônomos. Não sinta pena, mas compaixão. Estenda-lhes a mão, não por dó, mas para que se levantem. É por isso que sou de esquerda. Ainda estão do lado de quem mais sofre e paga por tudo.

— Entendo. No meu trabalho tenho aprendido bastante sobre sociedades anônimas. Os homens se associam por isso, para ajudar aos outros, de certa forma. Trabalhei um tempo no setor público, mal via meu chefe, que quase não vinha trabalhar. Fiquei um pouco descrente. Mudei alguns planos por isso. Você tem feito planos?

— Ando pensando muito em seguir carreira acadêmica. Gosto de exercitar o pensamento, aplicá-lo de alguma forma. Para algum fim. Também quero cavar meu espaço no meu meio profissional, antes do mestrado, porém. E, bem para o futuro, tornar-me escritor — não me sinto preparado ainda: tenho muito a aprender.

— Lembro que sempre te dei conselhos. Era engraçado, enquanto voltávamos para casa, era frequente aquela sessão descarrego sua comigo. Acho que não te era fácil, mas, igualmente querendo ser diferentes dos outros, fazíamos cada um ao nosso modo: você isolava-se; eu tentava transitar entre os meios. Sobrevivemos, de certa forma.

— Costumava me manter em pé por sua ajuda.

— Talvez um apoio, mas até agora você veio sozinho. Não é mesmo?

— Sabe que sempre valorizei teus conselhos. Isolava-me também porque era muito inseguro. Sempre pudemos confiar um no outro. Acho que ainda é assim.

— Com certeza é.

— E depois de quase três anos sem dividir uma cerveja…

Segurando um ao outro, de tão bêbados, saíram abraçados, lado a lado, ombro a ombro. A exceção da altura desproporcional entre as partes, uma muito mais alta que a outra, vinham simétricos, contudo. Findaram a conversa só muito depois, continuaram a rever tudo noite e vida adentro. Perderam os ônibus e as horas. Mas continuavam e vinham o caminho inteiro juntos: um pé no chão, outro ao ar.

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Sobre Guilherme Zocchio

Jornalista.
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