Contra o vazio existencial

“Eu vi coisas que vocês, humanos, não acreditariam. Naves de guerra em chamas no Cinturão de Orion. Eu vi raios-C brilharem no escuro próximos ao portão de Tannhauser. Todos esses momentos irão se perder no tempo, como lágrimas na chuva… Hora de morrer”, dizia Roy, líder do coletivo de replicantes rebeldes, a Deckard, ao final de Blade Runner, pouco depois do fatídico encontro quando se encerra uma das mais belas, e simbólicas, cenas do filme. Naquele momento, o andróide assume a própria existência perante Deckard, seu antigo algoz. É desse modo que o ser maquínico, antes escravo, coloca a toda a raça humana, representada ali por Deckard, a própria autonomia —de modo quase irônico, o seu caráter demasiadamente humano de existir.


Dois aspectos dessa cena, em especial, destacam-se na ação de Roy: o mais evidente é a narrativa, já que pressupõe diálogo, das memórias pessoais a Deckard, daquilo que só o replicante teve a oportunidade de presenciar, segundo a perspectiva não de um simples espectador, mas sobretudo do ponto de vista de um sujeito que percebeu e gravou na consciência aquilo pelo que passou. O menos evidente é a negação do outro: superar primeiro o status de escravo (de antes de aparecer no filme), ao uivar como lobo do próprio homem (isso acontece pouco antes da cena acima) e demonstrar sua força perante Deckard, e depois, uma vez reconhecido como autônomo, ter não piedade —ao contrário de uma leitura mais superficial— de seu algoz, mas sim reconhecer a presença do outro como necessária para garantir a marca da própria existência, por mais que suas memórias fossem “se perder no tempo, como lágrimas na chuva”, chegada a hora de morrer.

Da ficção para o real, ou concreto, ou ainda presente

Mesmo vindo ao mundo sob o status de ferramenta robótica para servir ao homem, Roy eleva, por sua vez, o existencial como caráter fundante da condição humana. A rejeição do replicante ao status de ser metodicamente construído, além de negar qualquer espécie de definição fechada sobre o sujeito, afirma a própria transitoriedade como faculdade decisiva à condição existencial. Ao contrário de quem coloca a máquina, ou a informática, hoje como inescapávael para a vida social, e exagerando um pouco na caricatura: em moldes atuais, o gesto de Roy acena para, ao invés de preferir prender-se à própria definição dura de um perfil em alguma rede social, a escolha, de livre-arbítrio, de viver o dia a dia concreto, mesmo que isso signifique confrontar o status de oprimido, confrontar ao próximo ou, em nível mais radical, ao próprio opressor.

Sem cair numa análise panfletária, os desdobramentos da ação de Roy, com efeito, apontam, apesar da tragédia de constatar a própria morte, a uma atitude essencialmente libertária — o que ajudaria a compreender, por outro lado, a serenidade do andróide, mesmo diante do final da vida. Ele não só assume uma condição de igualdade antropomórfica, ao expor elementos da própria subjetividade que o igualam a um ser humano, mas também o faz no sentido de elevar a própria consciência e reafirmar a possibilidade de escolhas, reconstruções de sentidos e mudanças do ser humano. Com o risco de cair no exagero, Roy, em seus últimos momentos, toca, nem que só com as pontas dos dedos, à extremidade distante da corda-bamba, onde está o Übermensch prenunciado pelo Zaratustra nietzschiano. A violência do replicante, por mais que atinja Deckard, vai no sentido de superar a própria condição de inferioridade; ele se liberta e se afirma como homem; por fim, quando tem a chance de abater seu algoz, reconhece-o e então lhe deixa os últimos suspiros.

Das lágrimas na chuva

Roy percebe, como definia Sartre, ser-para-si: indivíduo autônomo o qual constrói a própria essência por aquilo que vive e pelas escolhas que faz. Percebe que, em vez de máquina e portanto objeto do homem, é sujeito, no mais próprio da condição humana. Contra o vazio existencial, assume, reconhece e usufrui da própria existência —que não a é de mais ninguém.

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Sobre Guilherme Zocchio

Jornalista.
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