Quimera

Fitava-a de longe, tal qual costume. Olhos nos olhos, depois um disfarce tímido e a tentativa de ser correspondido para desviar-me mais uma vez. E por vezes repetir o ciclo. Ao mais remoto e aleatório acaso, no entanto. Tinha a mais pura impressão de ser correspondido, aliás. Não me lembro quem de fato começara por quem. De minha vista, sempre foram os olhos meus mais atentos. Minhas próprias percepção e memória me traem dessa vez, porém, já que, embora localize-as, não me apontam o começo dessa ousadia despretenciosa.

Quando o acaso aparece-me para agarrá-lo, e o decorrer me parecia meramente circunstancial, cria eu que bastava uma questão de tempo: de esperar a situação, a hora e o momento oportunos — que estavam cada vez mais próximos, achava. Desenhava-se, assim, tudo como planejado na agenda de alguns poucos minutos até a hora de dizer simplesmente ‘olá, você é de…’.

A mesma eventualidade que parecia perfeita à minha própria pré-potência vira-me as costas, contudo. Sequer dá-se o trabalho de uma despedida. Ignora-me na mais pura indiferença. Esquece-me —como se houvesse realmente algo a lembrar— para trás. Entrega as mãos a outra parceira, ao que me pega mais abertamente desprevinido, e segue sem o menor pesar de uma mínima despedida visual dos olhos que, raro —é verdade—, costumavam se cruzar, mesmo pouco, mas de uma parte entregue ao próprio desejo da descoberta, da aventura que só a redenção ao outro poderia trazer.

Sem reação, volto-me à própria rota de fuga para casa. Sigo — meio robótico, meio catatônico.

Em porto seguro, largo-me ao decorrer das lembranças de hoje, que me tiram, por sua vez, de minha própria pequena — e rotineira — frustração. Dos altos e baixos do dia, dou razão às forças, que se alimentando friamente são energia para que eu saia, nem que o mínimo, do lugar. De todos os espaços vazios no lugar hostil que só o mais familiar dos ambientes pode se tornar algumas vezes, o reflexo moldurado à parede é o que captura minha vontade e me pede para fitar-lhe. Sem traumas, dessa vez. Algumas referências balançam a fim de me acordar de um novo pesadonho.

Frente a frente com o espelho, passo a observar, então, o próprio reflexo. Ao dar-me conta, porém, de minha imagem projetada no anteparo, caio na mais visceral e profunda gargalhada.

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Sobre Guilherme Zocchio

Jornalista.
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