Despertava, sim, repugnância

Uma mulher olhava-o com o asco mais inimaginavelmente escandaloso, logo quando entrou, fazendo muito barulho, como haveria de ser, já que não só o tom de voz ou a rapidez nas palavras, mas também a própria fala, assustavam aos outros, no ônibus, que —tinham a impressão— infelizmente dividiam o recinto com alguém ou algo que outrora ficaria confinado n’algum manicômio por aí. Entrara e se metera entre duas mulheres que tentavam cruzar a catraca enquanto ouviam, estarrecidas, dizeres sobre comprar um carro, uma arma, dirigir, atirar, não pegar mais ônibus, matar, ser rico e não ser preso. Sem muitas variações: somando talvez apenas o que falava sobre assassinar um pai de família e tomar uma mulher para si.

No meio disso, instantes após as duas senhoras cruzarem o bloqueio, uma com olhos que saltavam ao fundo do corredor e outra com a boca tão torta —de indignada— que quase tocava as orelhas, ele, que balançava irritantemente inquieto as pernas e os braços —quase primata, quase animalesco— arrumou uma interlocutora. Parou, portanto, de balbuciar psicoses ao ar para disparar, algumas bobagens, contra a cobradora do veículo.

— Vou pegar um carro, não vou andar mais de ônibus, vou pegar uma arma, matar um pai de família, e pegar uma mulher para mim.

— Vai, é? E não vai ser preso?

— Vou nada. Eu sou rico, vou ser rico, contrato um bom advogado e não me pegam.

— Rico!? Olho para a tua cara e sei que tu não tem um tostão, tá mais fodido que qualquer um aqui.

— Eu pego uma arma, mato o pai de família, pego a mulher e o dinheiro. Tu tem jeito que é casada e tem alguém.

— Odeio casamento. Não suporto ser esposa, esse tipo de coisa. Você que se acha muito esperto, pegar arma, matar, não ser preso. Vai ser preso.

— Polícia só pega pobre, fodido, vagabundo. Eu sou rico, contrato um bom advogado, ninguém pega rico.

— Já disse que só de olhar na tua cara eu vejo o quão fodido tu é.

— Ah, eu vou, entro pra igreja, mato, peço perdão, e ninguém me pega.

— Para entrar na igreja tem que ter dinheiro, e já te disse que só de olhar na tua cara eu vejo que tu é um fodido.

— Mas eu pego uma arma, mato um pai de família — dizia, a todo o tempo sem sossegar braços e pernas, vale lembrar —, pego a mulher, o dinheiro e não sou preso.

— Seguinte, filho, se você não percebeu, os caras só pegam gente que nem a gente, que tem pouco. Tu não tem nada, eu tô vendo, sossega aí.

O ciclo continuou, por parte dele, mais ou menos o mesmo. A cobradora, altiva na própria sapiência, lidava com a loucura, a pura psicose diante de si, sem fraquejar um nada, sem ter também o mínimo de culpa ou dó; mesmo a dureza, parecia, tentava dar um mínimo de dignidade a tal exemplar tragicômico. Bom lembrar, ainda, que enquanto falava, ao contrário da impressão passada pelas barbaridades que proferia, ele sorria um riso meio infantil, totalmente inofensivo, embora evidentemente não muito saudável. No fundo, o falador do ônibus não despertava muito medo por ali, estava inclusive domado; despertava, sim, repugnância: não bastado os olhos esbugalhados, a boca torta e a cara de asco, as vistas eram, no geral, de desprezo. No fim, melhor ou pior, saiu e não fez nada a ninguém.

E nem deve fazer…

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Sobre Guilherme Zocchio

Jornalista.
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