Do mais fundo do peito

Alguns cacos de vidro esparramavam-se pelo chão —em vez da janela, alvo preterido, havia sido, em último lance de lucidez, uma velha garrafa de vidro. Tudo, tudo, tudo, todos ouviam as paredes retumbar em murros. Jornais velhos espalhavam-se, picavam-se, entre pisadas, pisões e pontapés. Uma velha sacola de papelão encolhia-se, cada vez mais, com os chutes —e com medo, também, talvez. Da última ocasião, o saldo negativo havia sido grave: uma cadeira quase voara janela afora, do último andar do prédio.

As extremidades do corpo eram incapazes de reter tamanha natureza selvagem pulsando: tudo voava à volta. Os braços debatiam, em frênesi contra o que houvesse na frente. As pernas faziam-no correr ou pisar sobre qualquer coisa que parecesse frágil, sobre o mais minúsculo e insignificante objeto que se colocasse no caminho. A carcaça parecia obedecer, sem hesitar, aos mínimos comandos de outrém —como se Thanatos repetisse palavras de ordem de um fosso profundo.

O equilibrista já tombara, a essa altura, para trás na corda bamba; era uma questão de tempo, portanto, até que caísse no escuro, apavorante, silencioso, assustador, porém, conhecido abismo. Mesmo as pontas dos dedos, motivadas pelas pulsões que eram expelidas incriteriosamente, começavam a largar da tênue linha na qual seguravam o último respiro de uma feição animalesca, bestial, feroz, destruída.

Não havia, além disso, o mínimo ensaio zombeteiro de si que experimentasse provocar um riso, uma gargalhada viceral, capaz de salvá-lo. Levava a melhor a mais terrível tragédia, vinda como uma facada pelas costas, terrível, fria, cruel — inpensada.

Em um último lance, contudo, antes que o primeiro alvo vivo estivesse à mira, um último olhar, uma vontade desperta pela desejo de escapar do abismo despertou sobre o equilibrista, quase despencando da corda bamba. Ele jogou toda a percepção para fora, para de uma vez projetá-la para dentro, junto a todo ar que inspirava em uma só tragada, e enfim dar nome, tom, afinação, forma, ritmo e cor ao que lhe afligia: QUE ÓDIO, gritou do mais fundo do peito, ao concentrar também toda a pulsão em só ponto, para enfim vomitá-la.

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Sobre Guilherme Zocchio

Jornalista.
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