Vestido azul

Um par de sapatos branco, de dois pés vestindo um tênis rasteiro e surrado, serpenteia de lá para cá enquanto acompanha a dança de pernas que cruzam e se descruzam e saem do vestido azul de uma menina —ou de uma mulher. Ora próximas, ora frouxas, as panturrilhas —um pouco acima— se jogam uma para cada canto ou se aproximam, de acordo com a direção que os olhos e o pensamento da moça se voltam. Despertam a curiosidade daquele em frente, que disfarça mirando aos pés ou a um livro aberto do qual ele, por sua vez, pouco se lembra.

Os quadris se contraem e recolhem, primeiro, mas descontraem e relaxam, por fim, depois de um relance rápido, inocente mas planejado, que termina com dois olhares e sorrisos de canto. Abertos, dois livros, um para cada um dos dois que estavam de frente naqueles poucos metros quadrados que os separavam, serviam de álibi —ou, talvez, imaginação.

Um dos braços se preocupava em segurar as páginas, enquanto o outro, de um lado, em segurar o rosto, esconder os suspiros e disfarçar o encanto em meio à contingência; do outro, o outro braço, o dela, conduzia a mão em direção aos cabelos para jogá-los atrás da orelha ou tapar de leve o rosto, que espiava de leve.

Confortáveis, as pernas da menina —ou mulher— jogavam-se uma para cada canto da saia do vestido azul. Descruzadas, atraíam o olhar do rapaz que, com um tanto de culpa, outro de curiosidade e outro de desejo, fitava por entre elas. Os olhos dele partiam dessa visão, desciam, voltavam ao serpentear do par de sapatos branco, tornavam para cima, admiravam o rosto da moça e traziam o suspiro que, porque não conseguiam expressar tudo sozinho, saía pela boca dele —meio tímido, meio infantil. Os olhos dela vinham do livro que carregava em mãos e se projetavam à frente, atentando às curvas de um cabelo escuro e meio ensebado, depois retornavam ao rosto, de onde iam à boca, pescoço, ombros, coxas, pernas —que estavam descobertas como as delas— e, por fim, de volta ao livro do qual partiram.

Neste ciclo meio irregular, o azul do vestido e o preto de um suéter velho coloriam a cena de uma noite fria e chuvosa. Os dois se olhavam, a menina —ou mulher— e o rapaz, miravam-se. Ela virava ao lado e sorria; ele parava, esquecia o livro —de que, na verdade, pouco realmente se lembrara— também sorria, mas suspirava sobretudo. O tempo ia passando, sem que ninguém soubesse ao certo quantos minutos, horas e segundos se perdiam, naquelas sucessivas trocas, naquele devir.

Quando determinado momento, que ora ou outra haveria de chegar, ocorre, a moça guarda o livro na bolsa que carregava, olha mais uma vez ao rapaz enquanto se mantém alguns segundos de pé, próxima, mas de perfil a ele. Fica algum tempo assim, até que se move, sai andando em direção a uma escadaria, que degrau por degrau sobe, indo embora.

Enquanto assiste à cena e suspira sem mais disfarçar que acompanhava a moça partindo e subindo as escadas, o rapaz respira fundo e deseja jamais se esquecer dessa peça —real, mas com todo o desenrolar da ficção. Ciente de que não aconteceria novamente, decide então registrá-la em uma a imagem, certamente a que mais lhe foi marcante: um par de sapatos branco, de dois pés vestindo um tênis rasteiro e surrado, que serpenteia de lá para cá enquanto acompanha a dança de pernas que cruzam e se descruzam e saem do vestido azul de uma menina —ou de uma mulher…

“Lo quiero todo, y tengo muy claro que no / te voy a entender / más que en parte. // Me importa mucho más / verte vibrar, así, / que descifrarte”

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Sobre Guilherme Zocchio

Jornalista.
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