Sobre a influência e atuação da máquina computador

Dizia Deleuze que não há instrumento melhor que o computador para corresponder à nossa sociedade de controle. Se historicamente cada modo social remete a algum tipo de aparelho —roldanas e alavancas, nas sociedades de soberania, ou máquinas de energia e outros motores, nas sociedades disciplinares— certamente a informática, compreendida pelo computador, representa hoje com melhor destaque as formas de operação do trabalho, das relações sociais, da produção e, por que não também, do controle, da captura e da vigilância. Qualquer outro objeto que se tente destacar no intuito de representar essa época, com especial destaque ao século XXI, necessariamente, será atravessado pelo computador e pelo seu modus operandi informático. Vê-se, a princípio, que tantas outras codificações, além de sociedades de controle, se não deixam explícito, no mínimo remetem ou invocam ao computador: entre outros, sociedade da informação, sociedade digital, mundo conectado, mundo digital ou, talvez, sociedade cibernética.

(Ainda que —bom fazer a ressalva—, tenha surgido, de acordo com indicações mais objetivas, durante o século XX, o computador só assume e tem caráter decisivo apontando para o começo do século XXI. De modo parecido ocorre com o automóvel, que, embora surgido no século XIX, teve apogeu e foi parte determinante do século XX. Qualquer outra invenção parecida ao computador, portanto, no começo do terceiro milênio, em maior ou menor medida, remete ou vem, em essência, dele próprio: smartphones, netbooks, tablets, mp3 players ou o que quer que seja. Isso é suficiente para torná-lo edifício e edificante do século XXI e admiti-lo que, por entendê-lo assim, é, senão outra coisa, uma invenção que, por implicância, pertence a este período).

Com efeito, a máquina computador é, também e principalmente, um avanço tecnológico guiado pelo próprio capitalismo —como se diz no jargão, um avanço das forças produtivas; e, como de praxe pode-se deduzir, coloca em campo suas variantes, suas formas de (des ou) territorialização, seus sistemas, códigos, perigos, agenciamentos, suas regras e suas velocidades. Não tanto as funções, mas o modo binário, além das matrizes, caracteriza, em especial, as formas de ser, agir e pensar dentro de um espectro cuja variante só pode estar entre zeros e uns —ainda que transmita qualquer tentativa de sair de tudo ou nada, esse código possui valores de distanciamento, variações que, modo ou outro, voltam-se a si, ao próprio código binário, de tudo ou nada. As operações mudam: ao contrário das formas disciplinares, que exigem isolamento, foco e concentração, as formas de controle, produto do meio informático, refletem na conectividade —à todo custo, compulsiva, mesmo quando não se deseja—, no hipertexto, no virtual, e, claro, na dispersão, que menos é um traço individual do que a compulsão em ser (como o próprio computador), na verdade, multitarefa, preparado para servir às demandas de um trabalho, que agora talvez ainda mais nos seja alheio.

Ao mesmo tempo, o indivíduo deixa de existir —se não o faz, minimamente perde evidência— fora dos códigos, das identificações numéricas, das conexões, dos fios condutores, dos perfis e das redes que se interligam e, igualmente, existem por conta dos computadores. A existência, em si, é capturada. Se, no começo do século XX, o humano definia o caráter pelas capacidades e conseqüências da escolha, no existencialismo, agora, pela série de prerrogativas que se colocam à identidade, pelas tecno-dependências, o ciborgue, guiado pelos fluxos da informação, da tecnologia, dos computadores e da informática, captura e prende o humano. Mais do que antes, a velocidade (Virilio debruça-se bem sobre esta questão), além disso, do processamento de dados, das fibras óticas, das memórias virtuais passa a permear, por sua vez, todos os campos da vida e das sociedades: o lento, cujo reconhecimento e valor social são negativos, torna-se quase um pária que deve ser excluído, afastado ou eliminado —embora realmente o seja, ainda que não manifestamos o desejo ou ignoremos o que lhe acontece—; o cinema de Hollywood ou outras formas da indústria cultural exprimem a velocidade de modo parecido, por meio da violência, do fetiche pela técnica, por cenas curtas, dispersivas e rápidas; a seqüência de notas de uma música pop; as batidas da música eletrônica; o computador, enfim, guia por completo setores e formas da produção cultural.

Mas, embora admitamos como opera a dominação, não se pode deixar de perceber como se articulam, através da máquina computador, as formas de resistência. Os vírus e panes do sistema desterritorializam a influência da informática e do computador; a luta por códigos e plataformas digitais abertas, colaborativas e livres travam combate tanto no campo do virtual quanto do real, na medida em que conhecimento e informação podem estar à serviço da propriedade privada ou disponível como um bem público, para a produção da mais-valia, de um lado, ou da livre-criação, de outro; o hacker-ativismo, o ciber-ativismo e o mídia-ativismo, além disso, também manifestam desejos, agenciamentos que se apropriam do meio de controle para subvertê-lo a outro fim, pela resistência de minorias, a priori, pelo embaralhamento, na máquina-de-guerra, do código inimigo; o suicídio virtual, por sua vez, também representa, pelo orkutcídio, pelo tuitícidio, pelo facebookcídio, a resistência à própria entrega ao sistema de controle, o resgate, depois da captura, da própria identidade. Enfim, trata-se de reconhecer alguns elementos-chave em meio ao mapa do controle, em pleno século XXI, compreender como opera, o que influencia, e de que maneira, talvez, é possível, em sua máquina principal, o computador, subverter, muito mais do que admitir, esse modus operandi. “Os anéis de uma serpente são ainda mais complicados que os buracos de uma toupeira”, afinal.

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Sobre Guilherme Zocchio

Jornalista.
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