Direitos humanos primeiro!

São Paulo elege três ex-policiais militares para vereador da cidade. Juntos, Conte Lopes (PTB), ex-capitão da ROTA no governo de Paulo Maluf, Álvaro Camilo (PSD), ex-comandante da PM quando José Serra era governador, e Paulo Telhada (PSDB), outro ex-oficial da ROTA e eleito sob o slogan de “bandido bom é bandido morto”, somam 77 mortes no período em que estiveram ativos na polícia. Defendem o uso da força no trato à criminalidade e acumulam acusações de incitação pública à violência.

Entre outros episódios pelos quais o trio é conhecido também estão pérolas como considerar “legítima” ações de assassinato a suspeitos, ameaças a jornalistas que cobrem a área de segurança pública e o apoio à terceirização do trabalho de policiais militares para fazer a segurança particular de áreas públicas da prefeitura de São Paulo, através da operação delegada. Além disso, orgulham-se sem hesitar de terem feito parte de um dos corpos de segurança mais violentos do mundo, a polícia militar do Estado de São Paulo —que acumula, em período de quase sete anos, 4.358 mortes, um número nove vezes superior a todo o corpo policial dos EUA no mesmo intervalo de tempo.

Por outro lado, a cidade também coloca como vereador mais votado, Roberto Tripoli (PV), que foi a escolha de 132mil eleitores paulistanos. Ele é reeleito para mais um mandato e levanta como principal bandeira a defesa dos direitos dos animais. Tem por feitos um projeto de lei que criou o primeiro hospital veterinário público no município e, não raro, era muito mais conhecido por colocar fotos de cães ou outros animais em materiais de divulgação em vez do próprio rosto. Em entrevista, logo após a reeleição, declarou: “Quanto mais conheço os humanos, mais gosto dos animais”. Mas ele também ressalta que “temos de cuidar de todas as vidas, independentemente de ser ser humano ou não”.

Na Repórter Brasil, escrevi recentemente uma matéria que conta a história de um fazendeiro no Maranhão que, enquanto mantinha uma coleção com mais de 100 animais raros muito bem tratados, também empregava 12 pessoas em escravidão contemporânea.

Paralelo, a isso, deparei-me certa vez com uma tentativa da organização Peta, de defesa dos animais, de processar o Parque Sea World por colocar suas baleias em regime de trabalho análogo ao de escravo. Vale lembrar que a classificação de trabalho escravo faz parte de um código jurídico e se estabelece nas relações econômicas criadas por humanos.

No meio disso tudo, de São Paulo ao Maranhão, de Santa Inês até Orlando, nos EUA, há na melhor das hipóteses uma grande e gorda confusão. Ou uma inversão de prioridades, no mínimo. Quer dizer, creio que ninguém com um tanto de humanidade gostaria de ver seres dependentes, como animais de cativeiro ou de estimação, sofrendo maus tratos na mão de pessoas. Mas, com esse mesmo tanto de humanidade que nos comove a ponto de criar os direitos dos animais, um fazendeiro trata bichos como gente e trabalhadores como bichos, e três incitadores da violência ganham poderes políticos, enquanto a plataforma para o representante legislativo com mais votos, na mais populosa cidade do Brasil, é a defesa dos animais.

Posso estar enganado, é claro, mas não lembro de nenhum candidato em São Paulo, mesmo os mais à esquerda e ligados às causas populares, levantando de peito aberto a defesa dos direitos humanos. É bem verdade que esse deveria ser um pressuposto; portanto, imagina-se que mesmo Telhada, Lopes ou Camilo deveriam ser eleitos para assumir este compromisso inevitavelmente —algo duvidoso.

Parece, no entanto, que, enquanto temos animais sendo tratados com a dignidade de seres humanos, não ligamos como sociedade que temos seres humanos sendo tratados como animais, com assassinatos, execuções e mortes arbitrárias que se acumulam aos montes… Uma situação que é, no mínimo, animalesca.

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Sobre Guilherme Zocchio

Jornalista.
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