Mensalão é só mais um

O mensalão é só mais um dos muitos escândalos de corrupção que marcam a política institucional brasileira. Como envolveu um partido, o Partido dos Trabalhadores (PT), que foi construído por bases populares, movimentos sociais e o grito daqueles que foram jogados à margem da política brasileira durante muito tempo —o movimento dos trabalhadores sem terra, o movimento operário-sindical, as pastorais de base da igreja católica—, isto é, só porque envolveu um partido que foi construído por todos aqueles que as elites do país mais exploraram, despejaram seu ódio e tentaram calar o escândalo do mensalão, equivocadamente chamado de “maior escândalo de corrupção do país” —pois quem garante isso?—, ganha a dimensão que ganha.

Pode parecer exagero, mas toda a repercussão do episódio não é por acaso. É muito mais um golpe contra as formas de organização popular do que propriamente um dever cívico da imprensa —historicamente, muito mais próxima das elites do que dos movimentos sociais.

(Que não passe despercebido, além disso, que, enquanto tanto falam do PT e o mensalão, o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) é aquele que teve mais candidatos impugnados pela lei do “Ficha Limpa” nessas últimas eleições, segundo um levantamento com base em dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE)).

Nada retira, por outro lado, a culpa daqueles que, no intuito de ocupar a política institucional, sujaram as mãos, usaram do público para fins privados e colocaram a todo custo o poder sobre a máquina do Estado para crescer a máquina do partido. Isso significa não só a condenação dos responsáveis por corrupção, mas, além disso, o reconhecimento de que o mensalão também marca a ruptura do PT com as mesmas bases que o construíram. São constatações que não podem passar despercebidas.

Dizem que, então, o mensalão precisaria ser julgado ora ou outra. Sem dúvidas. Mas por que o processo repercute, lado a lado, a um momento decisivo de eleições municipais no país? Maquiável dizia sobre os que detêm ou se aproximam do poder: “Não se iluda pensando que eles não têm um plano. Eles têm sim; se eles não tivessem, as circunstâncias por si só os forçaria a desenvolver um”.

Não é por acaso, portanto, essa estranha coincidência. Os idiotas fazem coro àquilo que se repete sobre o caso, aos discursos que se proliferam sem saber ao certo de onde vêm. O velho ódio contra os movimentos sociais populares toma as formas do ódio contra o partido que durante muito tempo esteve ao lado deles e, por sua origem “petralha”, “bandida” ou classificada de todas as outras formas que mais fazem coro aos preconceitos das elites contra o povo, consecute em declarações contra os candidatos do PT às prefeituras do Brasil —muitos dos quais, não duvido, sequer imaginavam o mensalão ocorrendo nos fundos do governo e do partido em que participavam, como Haddad em São Paulo e Pochmann em Campinas.

Enquanto corre o julgamento, a exposição dos fatos ganha os contornos de um grande produto da indústria cultural. Está muito mais próxima das modernas técnicas de produção de uma telenovela como Avenida Brasil —em que e a estética corre por si, cheia de um conteúdo vazio. Perceba-se, nesse sentido, o modo ficcional como o julgamento repercutiu: divisão em capítulos, frases de efeito, personagens mas não pessoas —os mocinhos do Supremo Tribunal Federal (STF) contra os bandidos do mensalão— e mais de 10 horas de cobertura pelo principal jornal da maior emissora televisa do país, entre outros.

Mas talvez insistirão alguns que a corrupção e os corruptos são o maior problema do Brasil e, portanto, não devem ser ignorados, de qualquer forma. Não há o que contestar na segunda afirmação. Nunca esteve muito claro, no entanto, o que querem os movimentos contra a corrupção no país. Quer dizer, sempre partem muito mais de premissas de julgamento indivudual, encarando a corrupção e o desvio de conduta como questões simplesmente morais, do que da compreensão de um produto de uma forma de organização política. A seu modo, o poder sempre corrompe. E nada redime o invíduo de suas escolhas morais. A forma concentrada e arcaica como operam as instituições brasileiras, porém, é muito mais significativa para entender a corrupção, inclusive no caso do mensalão. Para quem quer avançar, é impossível dissociar um ato contra a corrupção do projeto de uma grande e radical reforma política do Estado. Mas só para quem quer avançar.

Atacar a corrupção como questão meramente moral, de modo simplório, também serve aos interesses de muitos que reclamam, mas, na posição onde se encontram, pouco são atingidos pelo que se passa. Fazem mais coro a um discurso vazio, amnésico e instantâneo, que ignoram outros episódios igualmente graves, como o mensalão tucano em Minas Gerais ou simplesmente a privataria tucana —da qual José Serra, candidato a prefeitura em São Paulo, é peça-chave de mais outro elefantesco esquema de corrupção.

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Sobre Guilherme Zocchio

Jornalista.
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