Eu acho que te amo

Que me perdoem a desordem, mas começo com uma conclusão: devo muito à PUC-SP. E não se trata, antes, de um trocadilho ruim com dívidas ou o valor das mensalidades — por sua vez, cada ano mais altos. Mas é isso o que penso depois de viver tanta coisa por aqui. Basta-me que é, de tudo o que vivi ou ainda viverei, este o melhor modo de recordar, ou melhor, reencontrar o tempo vencido em quatros anos de vida universitária.

Mesmo ocorrido nos idos dos primeiros dias, ainda parece presente o momento em que, nos rascunhos das minhas decisões políticas, tive um de meus primeiros, e derradeiros, choque de valores: tratava-se de contestar um professor que viria dar aula à minha turma e eu, acostumado com a sacralização da figura docente, custei a aceitar o plano de, no mínimo, questioná-lo. Havia sido dificílimo. Quando me olho no mais íntimo, no entanto, hoje vejo o quanto foi decisivo aquele instante: não porque vencemos ou perdemos, mas porque, só porque, compreendi a dimensão do que é de fato assumir um conflito a partir do qual verdadeiras mudanças, inclusive interiores e existenciais, ocorrem.

Não são tão evidentes ou óbvias, porque demandam certa compreensão, mas essas mudanças realmente ocorrem. Inclusive algumas, por exemplo, as quais só agora, ou há pouquíssimo tempo, percebo.

Do mais fundo de minhas memórias, do tanto que estou disposto a me abrir com o fim de dar sentido a outrem, ou ao meu caro leitor, lembro-me de um profundo, denso e nauseabundo abismo que se chama depressão. Cicatrizes, feridas e traumas, por ordem de relevância, trazidos de momentos marcados pela ausência total de pertencimento, culminaram nisso, logo nos meus primeiros idos de PUC-SP. A hora e o local fossem outros, não teria encontrado uma saída necessária, ou as preciosas “linhas de fuga” — para usar um termo deleuziano que descobri na universidade. Em tempo: eu não teria me encontrado se não fosse a PUC e as descobertas que ela me colocava; seria incapaz talvez de dar o salto necessário para me livrar de certos fantasmas.

Todas as experiências que vivi nestes quatro anos me fizeram, primeiro, superar muitas angústias; depois me trouxeram, enquanto fui aprendendo a içar as minhas velas em meio a um imenso oceano, aonde estou agora. Fiz, creio, uma viagem de intensidade: fui de cabeça ao Contraponto desde o meu primeiro dia de PUC, participei do Centro Acadêmico (o vulgo CA, que pode ser muito mais divertido e expressar tanta potência criadora a mais quanto certo discurso instrumental, partidário no fundo, tenta colocar), realizei trabalhos que tive o orgulho de exibir, conheci pessoas formidáveis, eu discuti, briguei, corri, escrevi, li, falei, construí, destruí, criei, chorei e amei de muitas formas —mas sempre intensas.

De mais recente, e tão importante quanto o que passou, falei recentemente algo, ainda que com receio, enquanto lembrava de tantas coisas que vivi e que me valeram a pena, a alguém que conheceu quem é que me tornei depois de tanta coisa. Eu disse: “eu acho que te amo”. Mas logo me veio a surpresa, porque toda a intensidade que tive nestes quatro anos de PUC voltou para mim com a resposta: “eu te amo, mesmo, e eu já sabia disso faz tempo”.

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Sobre Guilherme Zocchio

Jornalista.
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