Pra ver a vida passar

Ainda gosto de andar a pé nessa loucura de cidade. É muita coisa acontecendo. Há sempre um perigo aqui ou acolá. “Pelas ruas de São Paulo só se anda com cuidado”, como dizem os mais velhos. Pra mim, não. Por isso que reclamam tanto da vida. Tão preocupados, tão menos atentos ao que se passa no caminho. Acho que menos importa o destino, andar a pé por aí tem um quê de mágico ou lúdico. Afinal, dá pra ver tanta coisa…

Todo mundo olha pras moças bonitas. Só que, depois que elas passaram, será que alguém repara naquela torcidinha de pescoço, na maior cara de pau, do cara ao lado? Eu reparo. E quando quero, faço até melhor. Primeiro que não gosto dessa admiração excessiva pelas costas de ninguém. Depois, pra quê a pressa? Se a moça já passou e não deu pra ver, basta uma meia-volta, um contorno no quarteirão pra resolver o problema. Curioso, gosto de vê-las de frente, de perto se aproximando, do rosto bonito, dos olhos, da boca… Mas, nessas de ser curioso, também já passei por cada uma. Melhor deixar pra lá!

Na rua, mesmo quando falta companhia, nunca, porém, se está sozinho. Não existe caminhante solitário, isso eu já vi. A verdade é que todo mundo repara em todo mundo, e a galera da rua tá sempre junta. Quando uma velhinha tropeça, nossa!, é uma multidão. Fulano chama resgate, cicrano ajuda a levantar e beltrano já vem até com copo de água na mão – este não tava andando, mas tava em casa com um olho… Também, por mais egoísta que alguém seja, não tem como não amparar a vovozinha que saiu só pra comprar um agrado pros netinhos. É só reparar na sacolinha, quando ela tá levando alguma: ou tá voltando com um doce da padaria ou com os ingredientes pra fazer um.

Olha, rola até sentimentalismo, se for ver. Vem cada lembrança. Outro dia mesmo, eu, de um lado, indo; do outro, vindo um casalzinho de amigos mais ou menos de uns 12 anos de idade: um gordinho e a uma loirinha – dessas que vai ficar bem bonita quando crescer. Ai… Quanto tempo já não fora desde que se apaixonara pela loirinha? Aqueles dois ainda teriam muito para conhecer um do outro, muito mais para sentirem, muito para chorarem; talvez teriam muito até se separarem. E outras tantas memórias vão enquanto tantas outras vêm.

O problema é que, normalmente, a gente não aproveita o passeio. A gente só anda em frente, só olha pra frente e com pressa, muita pressa. E só queremos que seja assim: tem sempre alguém nos esperando, estamos sempre atrasados. Para quê eu não sei. Eu sei que não dá pra viver desse jeito. Por isso gosto mesmo de andar a pé. Porque quando o fim chegar e não houver mais caminho, do que é que terá valido a pena a caminhada?

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Sobre Guilherme Zocchio

Jornalista.
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