Golpe na PUC-SP dói, e muito

Foi de uma violência tremenda o golpe desferido pelo Grão-Chanceler Dom Odilo Scherer contra a história, a política e a pedagogia da PUC-SP. Até agora, não consegui entender direito o que está acontecendo. Mas dói —e muito. Dói no fundo. Começa com as paredes que vejo marcadas por mais de 30 anos de protagonismo e vanguarda, e por enquanto se encerra, creio eu, fora, com as máquinas de guerra desejantes que começamos a colocar coletivamente contra a arbitrariedade e o autoritarismo da cúria metropolitana de São Paulo da Igreja Católica —outrora compromissada, ao contrário, com a transformação do Brasil e a garantia de direitos humanos e liberdades civis e políticas.

O andar das assembléias de resistência à nomeação de Anna Cintra, a menos votada de todos os candidatos para reitor, até o momento parecem que evidenciam certa estranheza. Acho que estamos tontos —de pé, ainda, sem dúvidas, mas tontos.

Não há análise de conjuntura educacional que forneça subsídios suficientes para entender essa chaga; que ajude, ao mínimo, a saná-la ou anestesiá-la. Todas as tentativas de grandes narrativas não dão conta de dimensionar aquilo que realmente podemos estar perdendo. É uma referência, um mártir, um símbolo que nos é roubado —e fica ferido— com desmedida profundidade.

Depois de carregar toda a história que carregou, de ter projetado as figuras que projetou, de ter abrigado, protegido e assistido muitos grandes homens e mulheres que marcaram a intelectualidade, a militância e a vida pública brasileira, o mais fundo de nossa memória nos é roubado. Isso ocorre em nome da deliquência acadêmica; de um projeto obscurantista e medieval de universidade, que quase a torna irrealizável em-si; da defesa, a todo o custo, da propriedade privada; e, por fim, da demonstração de um violento gesto de poder.

Como a ferida é profunda e incurável, mesmo doendo muito, parece então que, se queremos continuar vivos e de pé, o único modo é resistir.

Vejo, daqui em diante, um longo feriado. Espero que essa dor não passe a ser naturalizada, mas que toda vez que der sua pontada aguda, nesse tempo que provalmente estaremos longe da PUC-SP, ela jamais nos deixe esquecer da Universidade. Sob essas circunstâncias, tentaremos nos preparar para o salto em direção a este novo futuro que, agora, mal enxergamos; pelo qual, porém, estamos dispostos sim a lutar.

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Sobre Guilherme Zocchio

Jornalista.
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