Um convite à vida

Acho que é quase um consenso de que as causas, e o instrumento, da greve na PUC-SP contra a Anna Cintra são legítimos. Vejo muita gente, orientada pela operação do facebook, comentando, curtindo, compartilhando, mecanicamente. Algo que, de alguma forma, expressa a tentativa de prestar certa solidariedade ao movimento grevista. Tentativa apenas.

Não conseguiremos reverter esse quadro obscuro e nebuloso do futuro que se apresenta à PUC-SP hoje, sem romper também uma zona de conforto. Em quatro anos de faculdade, vi muita gente invocando democracia, vanguardismo, compromisso social, mudança, esquerda, transformação… Por outro lado, vi muito poucos daqueles que me estão próximos assumindo de fato essas causas e essas bandeiras.

No momento em que o enfrentamento e a transformação da realidade deixam de ser um discurso e tomam materialidade, com a violência de um golpe que nos é aplicado diretamente, um questionamento, que toca no fundo da conduta e ética de cada um, é colocado para todos nós: o que fazer?

Valem mesmo essas palavras e símbolos que invocamos? Tocam-nos mesmo ou são mero recurso defensivo para que nos escondamos de nossa própria posição confortável e conformada perante às mazelas do mundo? E não se trata de algo exterior à nossa própria realidade concreta. Essa greve diz respeito ao lugar em que muitos de nós passamos ou ainda passaremos quatro anos de nossas vidas. Quatro anos que nos transformarão, e muito —pelo menos, é o que eu sinto, no meu caso.

Insisto. Sem sair da zona de conforto, participar das assembléias, no mínimo, ou boicotar os professores autoritários que estão alinhados com Anna Cintra, a Igreja reacionária e a Fundação São Paulo, não vamos mudar nada. Absolutamente nada.

Alguns discursos parecem muito convenientes até que a dialética material os coloque em prova. Rosa Luxemburgo diria: quem não se movimenta não sente as correntes que o prendem. E realmente jamais sentirá, parado, ou inerte à mera reprodução de imagens, em um novo tipo de alienação, associada dessa vez ao conforto e ao prazer e, portanto, ao controle.

Sem participar, ficaremos apenas presos ao campo da imagem —não que este seja irrelevante, mas, como já percebia Guy Debord: “as imagens fluem desligadas de cada aspecto da vida e fundem-se num curso comum, de forma que a unidade da vida não mais pode ser restabelecida”. Pois, não é só em defesa da PUC-SP que lutamos. É em defesa da vida.

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Sobre Guilherme Zocchio

Jornalista.
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