Sobretudo, por amor

Da janela do apartamento, tinha, sem piscar, os olhos fixos em direção à rua escura. Sua atenção, porém, encontrava-se n’outro lugar. Lembrava-se da discussão que tivera, há pouco, com sua companheira. Ela, que morava a duas quadras, acabara de recusar uma carona oferecida para casa.

Preocupado com o horário, ele ficava cada vez mais apreensivo, enquanto repassava pela memória todos os “nãos” intercalados por “é perto” que ouvira em resposta, naquela noite, a sua tentativa. Ao mesmo tempo, sem sucesso, não a encontrava passar pela rua no tanto que enxergava.

O telefone tocou no momento mais agudo da preocupação. Que seria? “Cheguei, estou bem!”, dizia a mensagem dela. Ele se alivou. Não sabia, no entanto, que, por completar a jornada tranquila e se sentir livre da obrigação de ter que fazer tudo acompanhada àquela altura da noite, sua companheira também se aliviava.

Adiante no tempo, ela, por sua vez, contou às amigas sobre este último desentendimento. Nenhuma das meninas, contudo, conseguia conceber por qual motivo negara a carona, ainda sob aquelas circunstâncias. Insistiam em por que havia recusado. Uma reposta apenas ela deu, sem elaborar muito mais: fiz isso porque eu o amo; fiz isso, sobretudo, por amor.

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Sobre Guilherme Zocchio

Jornalista.
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