Crepúsculo do desejo

À margem esquerda, a mulher com pressa pela calçada; à direita, uma dúzia de pessoas amontoada à espera do ônibus; outros tantos espremidos, dentro da condução, pela rua. À exceção daqueles que estão ao telefone, poucos trocam menos grunhidos do que palavras —por texto—, enquanto o horizonte escurece, dourado. Nas pessoas, o semblante denota o peso daqueles que carregam o mundo nas costas, ao mesmo tempo em que, contudo, sabem: perdem-no. Cabeças inclinadas para baixo, olhares tristes e cansados, sem qualquer foco ou direção, com pálpebras arduamente abertas. E silêncio. Ronco de motores, buzinas, muitas buzinas, fumaça, frenagens, mais buzinas, batidas, canto de pneus, rangidos de ônibus e caminhões. Mas silêncio.

Sentado à janela do transporte público, um qualquer recorda do instante em que tudo começou. Ao fim do dia teria muito a comemorar, imaginara, inutilmente. Revia o script das falas, gestos e passagens que ensaiara, a seu modo pedante, pouco depois do alvorecer. Esforçara-se para lembrar das jogadas que usaria para desencadear as situações a seu favor, em vão. Decepção é produto da expectativa, doía-lhe pensar. Seria a indiferença pior do que a vaia; os poucos e inescapáveis segundos em contato com a plateia, mais doloridos do que a exaustão de repetir por vezes a mesma cena; a despedida genérica deixaria ainda mais saudades do que qualquer negativa. A mesma ansiedade, porém, tornaria a voltar dentro de dois dias. Que fazer, pensava.

Prefiro não fazer. Repetia-se tal qual um mantra nos pensamentos da mulher, durante a volta do primeiro turno da dupla jornada como dona de casa. Dirigiria o aforisma ao marido, assim que estivesse em casa, com sorte em mais hora ou hora e meia de viagem. A primeira parte do serviço terminou ainda mais exaustiva do que a de todos os outros anteriores. Uma série de movimentos repetitivos despertavam-lhe a artrite e a tendinite. A gastrite, porém, era o que mais incomodava. Só de pensar na reação de seu companheiro quando este soubesse que ela não pretendia preparar janta, lavar louça ou entregar-se à cama, o estômago se retorcia e embrulhava-se. Teria sorte caso, somente esta noite, não estivesse bêbado. Da última vez, ele havia machucado mais do que os seus sentimentos. Por que tornara-se assim?

Você é tão doce. Meigo, gentil, carinhoso. Nunca estive assim, tão perdidamente apaixonada. Voltou atrás. Entregava-se demais. Tornou a apagar a mensagem no celular outras duas vezes, antes de enviar. Receava mostrar toda a verdade. Ele viria de longe para vê-la este fim de semana. Talvez seria interessante guardar algumas palavras para quando estivessem juntos, depois de tanto tempo apenas trocando recados, com quilômetros entre os dois. Apenas constatar o fato de que o rapaz estaria na cidade amanhã já fazia-lhe imaginar os lugares lindos que visitariam, os carinhos, os gracejos, as conversas, o sexo… tudo. No último encontro, penetraram-se mais de vinte vezes durante o dia; à noite, perderam a conta. Borboletas voavam por dentro de sua barriga. Bip, soou a resposta. Tive um imprevisto no trabalho, terei que ficar por aqui, sábado e domingo.

Pesados ônibus articulados despejavam dúzias de passageiros pela calçada. As pessoas debatiam-se umas contra as outras para descer primeiro. Uma grande mochila, duas caixas grandes, uma para cada mão, solavancos, leves e rudes empurrões, outra mochila, todas às costas. E pronto. Todos desembarcaram, entre grunhidos e silêncios —com sorte, algo gemido próximo de “desculpe”. Pelas ruas, alguns arriscavam-se a passar correndo na frente dos carros; outros baixavam a cabeça, posição que poderia ser habitual, e apertavam o passo, com pressa para não se sabe o que, não sabe se onde. Lâmpadas acendiam nos postes. Diminuído, o sol agora parecia um mirtilo brilhante, cada vez mais baixo. O dourado tornara-se cinzento e o cinza, por sua vez, tornava-se violeta. Dos corpos fugia-lhes o desejo. Tornaria de volta em meio à contingência, após o crepúsculo. Mas somente àqueles que estivessem dispostos a se envolver no frio sereno da noite.

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Sobre Guilherme Zocchio

Jornalista.
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