Colcha de retalhos

Um homem gordo suspira longa e pesadamente ao meu lado. Sufoco, no curto período em que inspira; me afogo, enquanto expira. Ao fim do dia, contagia-me o prazer de um trabalho bem feito; a parte esquerda do peito dói, por outro lado, angustiada. Quando tudo que havia para ser feito acaba, sobra pouca ou nenhuma energia para realizar qualquer outra coisa. Falta-me capacidade para o mínimo esforço intelectual.

O vento, porém, emaranha, suja, enrola, bagunça ainda mais, embaraça, despenteia meus cabelos e me anima. Ver-me no espelho faz parecer que cada fio fora cuidadosamente arrumado a tomar aquela forma, curiosa, sem jeito. Mas palavras, uma vez ensaiadas, não podem ser ditas frente ao próprio reflexo. Excita-me lembrar das cenas que ocorreram conforme o script. Tristes são as passagens que tiveram de ser cortadas; não havia público, afinal.

Trechos de músicas, versos decorados de um poema, poses de um artista enrustido, passos de dança tortos e desajeitados. Se quiser transformar o ribeirão em braço de mar, vai ter que encontrar a fonte do ser… o mantra se repete em looping. Falar da cor dos temporais… pensar além do bem e do mal, lembrar de coisas que ninguém viu. Restou-me um sorriso, algo que me acalma quando é preciso. Os passos em minha direção, o terno toque no braço, a curta e gaguejada despedida, o desejo de retribuir em intensidade, com um puxão, um abraço, quiçá algo mais. Assim me sinto bem, pois não me sinto só, com minhas letras e canções.

Notas de jazz dão um ritmo interessante para as tarefas da manhã. Afora o tempo industrial da batida pop, e eletrônica, a música é boa companheira para a dose diária de solidão das linhas produtivas fordistas. Durante as pausas, o gosto das frutas é amargo, devido a qualquer lembrança ruim que teima em vir nos momentos mais inconvenientes. A frenagem na rua, a buzina do motorista impaciente, o ríspido ronco dos ônibus. Ruídos interrompem qualquer raciocínio, quando não se trata, em certos casos, da dificuldade alheia de manter o silêncio —e não o som— ao redor.

Volto às músicas. Cantos, hinos, odes e boleros que extravasam por meio de palavras. Palavras, ferramentas diárias de trabalho, ganha-pão, que, rígidas, são sustentação do dia a dia; e maleáveis, tecem vidas, poesias, contos e crônicas. Remendo-as num tecido, texto qualquer. Acho que, assim, consigo mostrar o que eu sinto.

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Sobre Guilherme Zocchio

Jornalista.
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