Não tenho palavras

Tem me parecido ultimamente que escrever é tarefa mais difícil do que se prega. O fazer jornalístico nesse sentido é ainda muito mais. Por vezes, penetrar surdamente no reino das palavras é uma estrada muito longa e árdua de ser trilhada. E quando raramente lá chego, estas sempre me têm a audácia de perguntar: trouxeste a chave? Ora, mas que chave?, escrever não é algo tão simples? Ledo Engano, Ledo engano, ledo engano…

As palavras não nascem amarradas… elas saltam, se beijam e se dissolvem —livres. São largas, puras e autênticas. Como posso, então, prendê-las? Não importa o espaço: três mil, seis mil, doze mil, dezoito mil, vinte e quatro mil serão sempre uma prisão, e não simplesmente páginas em branco a serem preenchidas.

Tenho pessoas, lugares, institutos, mercados —especialistas, todos querendo e prontos a falar! Prontíssimos, debaixo até de meus braços.

Mas não tenho palavras… aonde elas foram? DIGA-ME: AONDE ELAS FORAM? Certo, estão presas então; portanto não querem andar, e não conseguem se juntar nem conversar umas com as outras, o que é estranho, já que assim também não me procuram, por mais que eu sim.

Para escrever uma boa matéria, uma boa reportagem, eu deveria me emancipar: dos toques, das pedras no caminho —das pausas— e ir…

Acabar com tudo logo assim nesse sentido com efeito dessa maneira no entanto E me desprender totalmente como as palavras Para que agora preciso de vírgulas se estão me entendendo Posso muito bem fazer um texto do meu jeito que vão me compreender A todo o momento paro para contar mas agora a forma está livre e posso encontrar as palavras até que elas se aproximem de mim E então FINALMENTE penetro surdo no reino delas e juntos voltamos ao mundo real.

Aqui há pedras; pausas. Parágrafos…

E a forma, porém, continua a ser muito delicada; não disse até aqui, sinceramente, nenhuma novidade: nada se cria, tudo se copia até na poesia. O novo na verdade está para quem lê. Errar é um crime ao jornalista, ainda depois que não sou mais inimigo, mas sim aliado das palavras. Elas devem me ajudar a manter a linha exata do texto, seja, infelizmente, com quantos toques os jornais o precisarem. O fazer jornalístico é difícil, dificílimo, para falar a verdade —como é o compromisso da profissão.

O escrever jornalístico deveria ser mais livre. Em algumas vezes, o texto fica muito consistente, demais rígido, duro; em outras, fica desleixado, sem pé nem cabeça, fraco, pobre e estranho. O meio termo disso é quase uma utopia. Em suma, escrever uma matéria, uma reportagem, um texto jornalístico é um grande desafio. Se fosse fácil, qualquer um sem muito esforço o conseguiria, e se fosse tão ruim —por mais que difícil— nem tantas pessoas o quereriam menos por compromisso do que por romantismo.

Escrever invoca, em pelo menos metade de seu ato, inspiração; é difícil fazer um bom texto, tendo que cumprir prazos com tanta rigidez, alcançar ou mesmo deter-se a um tamanho pré-determinado. Este texto, por exemplo, foi entregue em cima da hora do prazo, na hora, entretanto, certa de ser escrito.

(Esta crônica foi escrita ao “Contraponto” de agosto de 2009 – nº60 -, o jornal laboratório do curso de jornalismo da PUC-SP).

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Sobre Guilherme Zocchio

Jornalista.
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