Skank e a Pop’filosofia

“A boa maneira para se ler hoje, porém, é a de conseguir tratar um livro como se escuta um disco, como se vê um filme ou um programa de televisão, como se recebe uma canção […] Os conceitos são exatamente como sons, cores ou imagens […] Não há nada a compreender, nada a interpretar”. (Gilles Deleuze, Diálogos)

A filosofia consiste em criar conceitos, segundo Deleuze. Por sua vez, os conceitos são intensidades que passam ou não passam; que afetam ou não afetam, a depender de seus componentes, de sua geografia e temporalidade de encontro. Os encontros se manifestam em devires.

A música desperta no interior de seus elementos —harmonia, textura, ritmo e letra— encontros, desponta como uma construção do fluxo do desejo, pinta como parte de uma estrutura fragmentária de sensações, gostos, cheiros, danças, sons e fantasmas. A música, desse modo, tem, assim, seus próprios encontros —e convergência— com a filosofia. Um devir música-filosofia.

Valho-me de Deleuze, porque gostaria de chamar, portanto, alguns desses encontros por Pop’filosofia. Como isto depende de seus componentes, no entanto, não pode ser algo de geral, mas que acredito descobrir-sentir-viver em certa “Canção Noturna” do Skank. É um fluxo que acompanha e segue ritmo e letra da música e desenha algo da criação; que se encontra imanente a alguns conceitos deleuzianos.

Misterioso luar de fronteira
Derramando no espinhaço quase um mar
Clareando a aduana
Venezuela, donde estás?

Trata-se uma paisagem com determinada geografia, que, portanto, compõe e possibilita algum encontro. Localizado d’algum jeito, o encontro torna-se um mundo possível, ainda que se passe em um não lugar, um “quase mar”, uma Venezuela que não se sabe “donde estás”.

Não sei por que nessas esquinas vejo o seu olhar.
Minha camisa estampada com o rosto de Elvis
A minha guitarra é minha razão
Minha sorte anunciada
Misteriosamente a lua sobre nada

No ambiente de encontro, uma dúvida, uma questão, aqui neste primeiro verso se coloca, ainda que sem uma interrogação explícita: “não sei por que […] vejo seu olhar”. Por quê? Há uma questão, um problema a que se procura entender e, talvez, ter resposta. Um novo desenho do lugar surge: a esquina, onde isto se passa, geometricamente, é um canto de convergência, um ângulo de encontro entre duas linhas. Talvez, linhas de fuga.

Na mesma cena, a camisa estampa um fantasma, a manifestação de uma lembrança, Elvis Presley, ícone do rock’n’roll. A guitarra é a razão, o eco do som que ecoa tal qual uma criação de conceito que se desenha para responder à pergunta inicial. A sorte, então, é “anunciada”, em um misto de sensações, novamente de volta a uma paisagem, com seus traços, mas que não se determina como mundo possível: é “a lua sobre nada”.

Não sei por que nessas esquinas vejo o seu olhar (2 vezes)
Espalhe por aí boatos de que eu ficarei aqui (2 vezes)

Ainda que haja um interlocutor, inexiste, no decorrer da música, um objeto claro e explícito. Pode-se tratar de uma declaração de amor, a um objeto de desejo. Mas, pelos caminhos que percorre, a música não se encerra de modo a fixar e delimitar isso. A dúvida se repete. No encontro das linhas de fuga, nas “esquinas”, há um olhar. Há, antes, então um encontro, manifestado em gesto visual. O olhar é a exterioridade do encontro. Os “boatos” coincidem como um fluxo, porque se espalham, e o indivíduo, vivente da música, permite-se ao encontro, quando afirma “ficarei aqui”.

Vem, mamacita, doida e meiga.
Sempre o âmago dos fatos
Minha guerra e as flores do cactos
Poema, cinema, trincheira.

O vivente da música chama e se permite ao encontro, “vem, mamacita”, enquanto define-o, tal como a própria experiência, “doida e meiga” e de outras formas contidas em sua experiência, no “âmago” dos fatos: “minha guerra”, “flores do cactos”, “poema”, “cinema”, “trincheira”.

Não sei por que nessas esquinas vejo o seu olhar
Um cego na fronteira, filósofo da zona.
Me disse que era um dervixe
Eu disse pra ele, camarada:
Acredito em tanta coisa que não vale nada

A dúvida retorna, por mais uma vez. A questão se repete como guia das diferentes partes dessa Pop’filosofia. O ser vivente, neste momento, porém, perde o contato exterior e se permite à experiência interior, na qual um fragmento de seu múltiplo é “filósofo da zona”. Este fragmento parte, então, a um encontro conceitual; diz que o que se passa “era um dervixe”. E, em sua multiplicidade, outro fragmento do múltiplo recorre a um aforismo: “acredito em tanta coisa que não vale nada”.

Não sei por que nessas esquinas vejo o seu olhar (2 vezes)
Espalhe por aí boatos de que eu ficarei aqui (2 vezes)

A repetição dos versos —da dúvida, do fluxo e dos encontros— afirma a diferença de dois momentos de encontro: o primeiro, no qual há um exterior, manifestado em experiência visual; e o segundo momento, quando há a experiência interior da busca pelo “dervixe” e, posteriormente, o aforismo. A partir daqui, há algo que se criou nos dois momentos diferentes de encontro. A dúvida então vai retornar e o movimento começa a se perceber na continuação e final da música.

Não sei por que nessas esquinas vejo seu olhar
Não sei por que nessas esquinas vejo seu olhar
Velejando, viajando sol quarando
Meu querer, meu dever, meu devir
E eu aqui a comer poeira
Que o sol deixará
Não sei por que nessas esquinas vejo o seu olhar
Não sei por que nessas esquinas vejo o seu olhar.

A repetição da dúvida continua como movimento, que dessa vez afirma outra diferença porque ocorre “velejando, viajando”, com outras sensações, “querer, dever e devir”. São componentes que não haviam aparecido antes. Também neste momento o vivente da música volta a desenhar a geografia da situação, a “poeira” que o sol deixará. Parado, a comer aquela poeira, volta, mais uma vez ao movimento, e afirma outra diferença pela repetição da dúvida e da necessidade de criar uma saída, encontrar, talvez, uma ou outra resposta. As linhas de fuga prosseguem e continuam a se cruzar…

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Sobre Guilherme Zocchio

Jornalista.
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