Encontros na estação

Deu dois passos para o lado esquerdo. Arrumou a boina, comprada recentemente, que, vestida, passava-lhe uma sensação de segurança: sentia-se bonita, afinal, o chapéu, como pensava, escondia uma falha que tinha no cabelo, desarranjo o qual, desde que fora caçoada por este motivo, incomodova-a. Respirou fundo. Levantou os olhos. Esticou as pontas dos pés e finalmente o viu chegar. Ele descia as escadas da estação.

Haviam conversado o suficiente para que ele a cativasse, em dois… três momentos talvez.

À medida que se aproximavam, algo fervia no topo do abdômen e, tinha certeza, agora não era a gastrite, a fervura doída que, de tantas crises, conhecia muito bem. Parecia como minúsculas borboletinhas, bem pequeninas, que se debatiam incriteriosamente, umas contra as outras. Dessa vez, era uma sensação serena.

As pernas também estavam estranhas, mas não das dores das ocasisões em que ficava o dia inteiro fora de casa, quando subia umas três ruas, tomava outros dois ônibus, após esperar com frequência dez minutos para que cada um passasse. Era como se as pernas parecessem leves demais, bambas, à mercê de mais uma queda — que, apenas esta semana, seria a sétima.

Não poderia se deixar cair agora, contudo. Mesmo porque, enquanto tentava entender aquela queimação no estômago ou a leve tontura que lhe atrapalhava o equilíbrio em um instante que julgava tão decisivo, estavam ambos, quando menos percebera, frente a frente.

Cumprimentaram-se. E logo tornaram a conversar. Em tempo, já haviam passado três ou quatro trens pela plataforma, desde que dera seus dois passos ao lado para confirmar se realmente era ele quem havia visto no metrô.

Falavam de seus amigos em comum.

Lembravam de acasos.

Juntos, deram algumas risadas.

A conversa, no entanto, parecia fútil. As bocas não deixavam claro o que ali se prentedia. Pelo menos, da parte dela.

Era nos olhos que se iniciava o primeiro traço de um rascunho de tantas sensações. Começava com um olhar que esgueirava de cima —pois ele era mais alto— para baixo, e permanecia por alguns segundos. Continuava em mãos delicadas, cujos dedos finos e as unhas mais ou menos curtas e sem esmalte deslisavam por fios louros de cabelo para colocá-los atrás da orelha esquerda, delineando pelo menos três tons diferentes de dourado. Persistia com o ensaio de um sorriso tímido, os lábios mordidos, reprimido pela insegurança que sentia ao lado dele, frente à emoção de gostar de alguém, em meio a incontáveis intensidades.

Trocaram mais algumas palavras.

Riram despretenciosamente. Demais até.

Ficaram em silêncio.

O idiota com quem conversava parecia mal dar nota de todos aqueles sinais sutis. Haveria ela de deixar ainda mais claro o que pretendia?

Não saberia, porém, responder à pergunta acima. Eu, narrador, deste último parágrafo em diante não pude mais acompanhar à cena. Meu celular tocava e não só havia alguém do outro lado me incomodando com não lembro o quê, como também dei conta do horário e precisei partir, pegar o primeiro trem e ir embora daquela estação.

Daqui em frente, portanto, poderia pensar o leitor que cometo grave erro em deixar a minha própria história em aberto. Primeiro, contraponho esta noção, ao lembrar que não era eu a protagonista. Colocado isto, anoto que jamais seria capaz de saber em tantos detalhes aquilo que descrevo: suponho, logo escrevo. Acredito que o escritor permite se afetar por seus encontros: no meu caso, pelos olhares de uma menina a um rapaz com quem conversava no metrô, aos quais misturo outras passagens de minha vida em outros dias diferentes.

Mas cá está uma teoria para encerrar este pequeno rascunho de conto. Não existe narrador onisciente. Afinal, como poderia, de longe, saber o que se passava na cabeça daquela menina? No fundo, de minha parte, tudo não passa de um agenciamento de pensamentos, teses e ilusões. Serviria esta resposta para continuar a história?

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Sobre Guilherme Zocchio

Jornalista.
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