Adeus ao Seu Álvaro, o trem da minha vida

“É de sonho e de pó o destino de um só,  feito eu perdido em pensamentos sobre o meu cavalo. É de laço e de nó, de jibeira o jiló, dessa vida cumprida a só…”

Com brio, mas sem drama, ao contrário de como bem gostava de fazer, o Seu Álvaro Zocchio se foi, aos 88 anos, na madrugada desta terça para quarta-feira. Enfrentava, nas últimas semanas, as complicações de um acidente vascular cerebral (AVC). Era alguém que conheci por demonstrar com frequência uma incrível força para lidar com tudo, absolutamente tudo, não só vigor físico, mas uma força de vontade muito rara entre a maioria de nós, mortais. Passou seus últimos dias tentando se recuperar das sequelas do derrame, porém não resistiu.

Ao Seu Álvaro Zocchio eu me referia, com carinho, desde pequeno, como vovô. Foi uma pessoa com quem tive a sorte de viver grande parte da minha vida, alguém que me ensinou muito, até seus últimos dias. Com sérias dificuldades para falar, devido às consequências do AVC, ele fez questão de no último dia 29 de maio, meu aniversário, falar comigo ao telefone e desejar, ainda que arrastado, “feliz aniversário, muitos anos de vida, que você seja muito feliz”. Sempre teve muito capricho em tudo o que fez e não faria diferente na hora de me arrancar um sorriso e muitas lágrimas, pela alegria de ouvi-lo àquele dia ou pela tristeza de saber de sua partida.

Era um homem extremamente inteligente, a quem sempre admirei, e me fez valorizar nas pessoas essa capacidade tão ligada à nossa vontade de criar, entender ou reiventar as coisas. O vovô foi uma das primeiras pessoas a me dar asas para voar neste mundo. Quando eu era criança, ele juntou um pedaço de papelão, um pouco de tinta branca, glíter, e me fez com artefatos um tanto quanto simples mas com uma faculdade criativa tão admirável as asinhas de um anjo, para uma apresentação da escola, aos meus 9 anos de idade. Até recentemente ele as mantinha guardadas em um pequeno, porém brioso, acervo pessoal de realizações; por lá, ele contava muitos objetos consertados, outros tantos inventados e uma série de livros que publicou. Tinha algo de escritor, além de tudo.

Gostaria que ele soubesse, embora eu ache que na verdade sempre teve certeza, do quanto eu o admirava, de como suas mãos grandes e intimidadoras eram hábeis e capazes de fazer as coisas mais bonitas e delicadas. Porque também era vaidoso o suficiente para reconhecer seus méritos, seus esforços, seus talentos. Adorava ser o centro das atenções e encenar passagens dramáticas, mesmo às vezes diante dos problemas mais simples, idiossincrasia esta que só lhe tornava uma pessoa ainda mais cativante.

Meu avô, aos 88 anos, era viúvo desde os 70. Perdeu minha avó, quando eu mal contava 6 anos de vida. Ambos vinham da roça, da região de Pedreira, interior de São Paulo, onde se conheceram e começaram a namorar ainda bem novos. Ao vir para a cidade grande, de lá, Seu Álvaro trouxe um traço que era, talvez, ainda mais marcante que qualquer outro e, no que temos de diferente, eu não compartilhava dele: a fé. Sobretudo, era um homem de fé. Não à toa, uma das lembranças mais fortes que tenho era ele cantando, pelos corredores da sua casa: “sou caipira, pirapora, nossa senhora de Aparecida, ilumina a mina escura e funda, o trem da minha vida”.

Adeus Seu Álvaro, adeus vovô… Se de tantas coisas você podia se orgulhar, sempre quis que pudesse se orgulhar de seu neto. Deixo esta minha simples homenagem ao senhor, com a qual espero fazer o mínimo de sombra em comparação a tudo o que já fez por mim. Ainda parece ontem quando eu, a Júlia, o Daniel e o Heitor tirávamos aquela foto no sofá, em cima do seu colo. Falo por mim, mas sei que, como eu, eles te amam muito e igualmente vamos todos sentir a sua falta. Adeus…

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Sobre Guilherme Zocchio

Jornalista.
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