Pelo fim do orkut!

Lamentamos o fim do orkut, mas, com o perdão do mau humor, digo que apaguei o meu em 2009 e não resgataria nada de lá. Certas coisas se passam na vida numa interioridade que, penso, voyeur nenhum deveria alcançar. O orkut foi uma das experiências mais bem sucedidas da fusão entre o controle e o espetáculo, como formas de poder sobre os corpos.

Essas luzinhas que piscam a toda hora e esse êxtase em se mostrar feliz, esboçado no orkut e agora versão 2.0 no facebook, só nos afastam da faculdade de interiorizar alguns sentimentos e construir sentidos que não podem ou devem ser instantâneos, porque precisam circular por uma série de artérias, liberar o tóxico nas veias e fazer a troca do gás carbônico pelo oxigênio nos pulmões —às vezes, mais de uma vez.

Ao contrário, o orkut acelera, de modo não saudável, a digestão de nossos afetos —está feliz? coloque uma foto; acha que está com saudades? envia um “scrap”; tá a fim? adiciona, manda um depoimento—, quando, na verdade, a mensagem de fundo é: alimente a vitrine de emoções que morrem nas lápides que eram e são nossos perfis em redes sociais; adicione, curta, compartilhe, envie um recado, em um milésimo de segundo, obedeça aos estímulos sem ativar metade da sua capacidade cerebral, sem sentir os batimentos do seu coração.

O orkut também foi um dos primeiros passos na intensificação do processo de morte da nossa capacidade em lidar com o imponderável. Aquele cara ou aquela menina que você curtiu na festa? A página dele diz “solteiro”, vai lá, divirta-se. É a captura da virtualidade de nossas existências, antes um universo caótico, aberto e imprevisível, agora catalogado, categorizado, diagnosticado em um “perfil” cadastrado e quantificado em uma base de dados. E nos entregamos, de peito aberto, a esse processo de total coisificação.

São 30 anos da morte de Michel Foucault, pensador que em “Vigiar e Punir”, já dizia “a visibilidade é uma armadilha”, sobre o panóptico, tecnologia que em muito antecede qualquer rede social. O orkut era uma armadilha, o facebook é uma armadilha. Vejam só que os chamamos de “rede”, do mesmo modo que um dos mais arcaicos instrumentos de caça da humanidade. Acrescentamos ainda “social”, para que fique claro aquilo que está sendo capturado.

Deixamos que vejam o que estamos fazendo, com quem estamos saindo, aquilo de que gostamos, deixamos que vejam o que estamos comendo, que tenham nossos registros, nossas fotografias, nossos sorrisos. Não nos pertencem mais. O homem põe, deus dispõe e a rede social expõe. Façamos centenas de selfies, mostremos onde, com quem, como estamos. Transformemos nossa angústia em um post, que ficará perdido, tal qual um moribundo em um necrotério, nas imensas bases de dados da internet. Entregamos nossos sentimentos mais profundos e, aos poucos, sentimo-os desaparecer.

Mas gostamos disso. E isso começa, com força, no orkut, porque essa rede social era, olha só, percebemos bem… divertida! Cá está a ironia do controle e de nossa capacidade, em aceleração, de nos brutalizarmos cada vez mais.

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Sobre Guilherme Zocchio

Jornalista.
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