O todo de um mundo inteiro

Não me importo em ficar até mais tarde no trabalho, em ser o último a sair e ter de desligar as luzes. Acho que existe um quê de romântico em deixar sozinho um prédio todo apagado no escuro da noite.

E não se trata de qualquer tendência workaholic. Como muitos, faço um trabalho chato e repetitivo e tenho o suficiente de amor próprio para não me deleitar enquanto entrego a mais-valia. Tampouco, contudo, sinto-me infeliz.

No caminho para casa, penso que essa sensação solitária, noturna, silenciosa, se passa da mesma forma que o assistir a uma boa cena de teatro, tal qual a figura de um personagem que nos seus mínimos atos protagoniza o todo de um mundo inteiro.

Na calada da noite, com as ruas vazias, o comércio fechado e os poucos bares encerrando as atividades, em meio a esta cena, eu sou o personagem principal. É algo que, no fundo, pouco incomoda. Não é ruim, porque a vida, hoje em dia, já o é suficiemente —embora, por outro lado, viver não o seja.

O ponto a que quero chegar neste devaneio é o seguinte. Sinto-me tão sozinho ou solitário como qualquer outro que finge que não é. Pouco me importa fingir o contrário, se o mundano ocorre precisamente  do modo que o percebo.

A vida tornou-se sozinha, e só se afeta por isso quem se permite se envolver por este mundo. Vejo meu trabalho e estou cercado de solidões, uma, duas, três, quatro, ao meu lado, à minha frente, atrás de mim, à minha volta. Por todo o lugar.

Bem diferente seria se essa solidão toda se tornasse outra coisa, se deixássemos de aos poucos perder nossas vidas.

Não gostaria, porém, de encerrar este devaneio por aqui, de modo tão pessimista. Acredito que o sentimento de estar sozinho decorre da falta de se pertencer, de se pertencer a este mundo que perdemos dia a dia.

Não se é totalmente sozinho quando se pertence. E a respeito disso, gostaria de dividir algumas palavras de Valter Hugo Mãe:

“todos nós nascemos filhos de mil pais e mais mil mães, e a solidão é sobretudo a incapacidade de ver qualquer pessoa como nos pertencendo, para que nos pertença de verdade e se gere um cuidado mútuo. Como se os nossos mil pais e as nossas mil mães coincidissem em parte, como se fôssemos por aí irmãos, irmãos uns dos outros. Somos o resultado de tanta gente, de tanta história, tão grandes sonhos que vão passando de pessoa a pessoa, que nunca estaremos sós”.

Penso que seria uma provocação interessante para encerrar este devaneio. Evito dividir questões pessoais na internet, mas acho que neste caso ainda valeria a pena dizer algo mais.

Nas ruas, no metrô, no cinema, em mensagens de celular, na minha própria cabeça, em vários locais, tenho encontrado, fitado, perdido, achado muitas pessoas que conheci nestes últimos anos. Gostaria que elas soubessem que, de certa forma, ainda me afetam e tocam o meu coração de alguma maneira, quiçá diferente de outros tempos.

Durante a solidão, o todo de um mundo inteiro se passa. Um todo ao qual eu posso pertencer e que, por isso, me permite, se assim desejar, não estar sozinho, resgatar essas pessoas dos últimos anos, evitar com que este mesmo mundo, afinal, se perca.

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Sobre Guilherme Zocchio

Jornalista.
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