(m)eu voto

É a grande festa da democracia. É o dia das eleições. É o dia em que tudo —ou mais parece nada— deve mudar. E este momento, em especial, é aquele em que muita gente declara seu voto.

Queria falar do meu. Não do meu candidato. Mas do meu voto político. Do mesmo tipo de voto que a gente faz quando um ano acaba e outro começa. Do mesmo tipo de desejo.

Não vou falar de tal ou qual candidato. Mas vou falar, sobretudo, de política.

Desejo e política são duas categorias que estão mais juntas do que costumamos imaginar. O desejo é um fluxo, que segue como um rio, caudoloso, torrencial, por vezes sereno, mas em alguma direção. Sempre em alguma direção. Em certos momentos, sem saber precisamente qual, mas, sem erro, em alguma direção.

Desejo, portanto, não é precisamente algo meu. Mas é um meu que vem de vários afluentes, várias fontes e várias nascentes e vai para várias direções, deságua em outros rios e se encontra até com oceanos, na forma de uma pororoca. É uma multiplicidade de encontros que, em algum ponto, eu próprio reconheço como eu e vejo-os como meu.

Poderia detalhar melhor esta minha visão particular do desejo. Mas vou falar dos meus votos políticos. Porque os considero muito particulares — ou talvez, não. Talvez apenas não tenham eco, contra as tantas barragens e transposições que interrompem nossos fluxos.

Faço um voto pela utopia. Para o lugar ao qual não se chega jamais. Para o eterno caminhar em direção não se sabe bem a quê. Mas para o qual eu caminho com alguns objetivos.

Voto para que reclamar do trabalho seja um direito de fato. Voto para que o diferente não seja tratado como um pária a ser expurgado, mas que seja acolhido tal qual a parte de nós que ainda não conhecíamos. Voto para que o riso não seja um instrumento de opressão, mas a potência de libertar-nos de nós mesmos. Voto para que a ética não seja a espada que ataca ou escudo que defende; voto para que a ética seja a dos amigos, daqueles que dão as mãos e cooperam uns com os outros — sobretudo com os diferentes. Voto para que práticas como assédio, constrangimento ou imposição nunca mais existam.

Voto, enfim, para que muito do que eu sinto dos outros ou também já senti em mim —ainda mais neste contato frio e direto com as eleições— se transforme, e para melhor. Meu voto pode parecer simples. Assume, porém, todas estas razões que listei, além de muitas outras não mencionadas.

Nessa perspectiva, a política, portanto, não se resume a apertar alguns botões e ouvir barulhinhos. Como o desejo, a política se manifesta em um fluxo, em uma potência que a algum objetivo pode chegar. É um fluxo que segue fluindo com seus turbilhões, tal qual junho e julho de 2013, e com suas calmarias, ressacas e secas, talvez como esta que estamos vivendo agora no Estado de São Paulo.

Nunca pretendi, aqui, falar de candidato qualquer —seria apenas mais do mesmo que tem se multiplicado—, mas sim falar do meu desejo. Acredito piamente que, quando este fluxo política-desejo irrompe as urnas que o aprisionam, tudo, afinal, pode mudar. Se outubro é frio e sufocante, outros junhos e julhos virão. Certamente virão. Meus votos são para isso.

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Sobre Guilherme Zocchio

Jornalista.
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