2014 em doze capítulos com trilha sonora

Este texto está mais para um rascunho. Penso que 2014 não foi um ano fácil — nem um pouco fácil. Pelo contrário, foi um ano muito difícil. Foi também um ano fragmentado em, arrisco dizer, 12 capítulos, correspondentes aos meses do ano. Constatado isso, gostaria de fazer uma retrospectiva com a listagem das 12 músicas que marcaram cada capítulo desta árdua história doismilecatorzina.

Vou escrever um pouco sobre o que lembro de cada mês e então fazer uma listagem de músicas que podem resumir o espírito daquele momento. Não significa que são músicas que necessariamente eu escutava no mês indicado para cada canção. Na verdade, significa que as músicas traduzem, de alguma forma, o que se passou naqueles momentos, ainda que vistos à distância do dia de hoje. Espero que, em meio meio ao monte de bobagens que vêm pela frente, seja pelo menos divertido. Desejo encerrar 2014 com este espírito!

Janeiro
Sem sombra de dúvidas, o primeiro mês do ano foi o rascunho do quão difícil seria —e acabou por ser— este ano. Começou em um pronto-socorro e terminou com uma proposta de trabalho que mais tarde se revelaria tediosa e mal remunerada. Nesta época, pipocaram também as primeiras discussões sobre os rolezinhos —em São Paulo especialmente—, e eu nunca vi algo sendo abordado de maneira tão bizzarra na imprensa. Enfim, na ansiedade de cumprir uma boa jornada em 2014, no primeiro capítulo após eu me graduar em jornalismo, o começo de tudo foi cruel e desastroso —nesta ordem. Foi um mês sombrio, sem qualquer luz ao fim do túnel, um período para o qual a melhor música me parece I see a darkness, de Bonnie “Prince” Billy.

Fevereiro
Com tudo o que deu errado em Janeiro, Fevereiro trazia a esperança de que as coisas poderiam ser melhores. Ledo engano. Na verdade, foi um mês tão cagado quanto seu antecessor. Sem expectativas atendidas, com os atos da Copa do Mundo começando a ficar cada vez mais treta e isso tudo somado ao fato de que o Renatão morreu, não preciso de muita cerimônia: foi uma bosta. Ainda tentei ir à praia com uns amigos para ver se as coisas melhoravam —ter certeza se toda a merda na minha vida não era questão de energia  ou sei lá— e cheguei e saí doente do rolê.

De quebra, ainda magoei profundamente alguém muito importante. (Se algum dia você ler este amontoado de bobagens, saiba que de verdade eu sinto muito. Não só por não nos reatarmos —eu tentei e realmente não consegui, umas cicatrizes doíam e meu corpo tampouco me permitiu—, mas sinto muito por tudo, por todas as vezes em que te machuquei e não pude corresponder às expectativas. Desculpe. E é isso que eu posso dizer por ora, por aqui). E neste momento, eu ainda acumularia mais uma visita ao pronto-socorro e sucessivas consultas a vários médicos. Fevereiro foi um mês árido, em que muitas ilusões caíram por terra. Sua música seria High and Dry, do Radiohead.

Março
Diria que a terceira e última parte do meu primeiro quarto de ano foi como um soluço, um suspiro, uma tentativa de desapegar dos dois desastrosos meses anteriores que tão logo começara mas mal conseguiu se realizar. O mês teve o carnaval e isso foi bem massa. Em Março, também despontou uma oportunidade daora de trampo: eu acompanhei uma fiscalização de trabalho escravo em uns cruzeiros de luxo. Foi bacana, mas profissionalmente as coisas não avançaram muito além daí. Nessa época, rolou também a reedição da marcha da família com deus pela puta que o pariu —assustador!— e começaram as primeiras rememorações de 50 anos do golpe no Brasil. Março foi um caldeirão de emoções que estourou no mês subsequente. Essa inconstância toda só poderia terminar com um Modern Love, do David Bowie (até porque foi na mesma época em que eu assisti a Frances Ha).

Abril
Há momentos na vida em que tomamos decisões estúpidas. Simplesmente. Temos plena consciência que aquilo que vamos fazer é estúpido e qualquer pessoa com o mínimo de consideração para conosco nos desaconselha a fazê-lo ao salientar a estupidez de nossas intenções. Mas isso pouco importa. Porque, ainda assim, realizamos esta insensata estupidez.

Creio que Abril foi o mês da minha grande estupidez de 2014. É um feito do qual não me arrependo —até porque não há como voltar atrás—, mas a respeito de que reconheço: foi estúpido. Não deveria ter me intrometido na vida de pessoas que já não me queriam por perto. Ainda assim, por um lado de estupidez e por outro tanto de apego (ou sei lá o quê), realizei meu ato quixotesco.

Sem me ater a detalhes, não preciso dizer que as consequências foram proporcionalmente duras. Não me lembro de ter ouvido antes coisas tão ríspidas, de um modo tão agressivo. Foram palavras doídas, e muito dolorosas.  O resultado foi tão forte que, poucos dias depois, contraí outra infecção de garganta e completei cinco pontos na carteirinha de fidelidade do pronto-socorro (coisa que não existe, mas poderia existir) em menos de seis meses.

Com esse turbilhão de sentimentos que passaria em Abril somado à carga emocional de três meses anteriores ruins, eu me sentia cada vez mais desorientado neste 2014. Penso que não haveria melhor questão do que a colocada na música Pra onde eu devo ir, do Vanguart.

Maio
É o mês do meu aniversário e é uma época em que normalmente coisas boas acontecem. Em que pese os dias de inferno astral anteriores ao meu aniversário, coisa que não se passou este ano, Maio costuma ser um mês pacato e de boas recordações. Aliás, em que pese a desgraça vivida neste ano de 2014, Maio foi um sinal de que as coisas poderiam melhorar embora as dificuldades continuassem. Além do meu aniversário, teve a virada cultural e a comemoração de 30 anos do CA Benevides Paixão. Por outro lado, meu avô começou a sofrer com as sequelas de um derrame, consequências essas que o levariam a falecer algumas semanas depois. Mas não posso reclamar. Penso que Maio me restabeleceu de volta a mim mesmo. A vida não era, afinal, ruim e deveria continuar. Lembrou-me de quem eu sou e do nome que eu tenho. Sua música, por isso, só poderia ser I got a name, do Jim Croce.

Junho
Passados mais ou menos os problemas de saúde do começo do ano, Junho foi um mês de oportunidades que aspiravam e indicavam mudança. Parecia que as coisas finalmente caminhavam. Só para dar um exemplo, rolou a entrevista de um trampo bem importante — e que me permitiu uma experiência profissional muito rica. E também li um dos livros mais marcantes para mim neste 2014. Acho que foi o indicativo decisivo de que todos os perrengues do começo do ano ficariam para trás. A linha de sombra, de Joseph Conrad. “Me parece que toda minha vida antes daquele momento é algo infinitamente remoto, uma lembrança da juventude despreocupada que vai se apagando, algo do outro lado de uma sombra”, para citar um trecho. Além disso, em Junho escrevi uns textos que, modéstia à parte, ficaram muito bons. Então, para este mês, cheio de expectativas, após a tormenta, deixo I won’t back down, na voz de Johnny Cash (a original é do Tom Petty & The Heartbreaks e também é massa).

Julho
O mês começou com o falecimento de meu avô. E isto poderia ter sido mais um sinal para eu fraquejar. Somado à tristeza, houve o fato de que meu pai completaria, em 2014, 58 anos de idade. Mas, como na maioria dos casos de pessoas que nos deixam, sabemos que precisamos seguir em frente. E Julho foi isso, o mês do ímpeto que não poderia parar. De, agora sim, segurar toda a pressão e seguir em frente. Foi quando comecei naquele trampo da entrevista de Junho e, também com essa segurança, eu tinha certeza de que era hora de seguir em frente, apesar de todas as dificuldades deste ano. Nisso, ainda tinha a companhia de O Filho de Mil Homens, do Valter Hugo Mãe, que com sua vitalidade pulsante foi meu livro companheiro neste decisivo mês de 2014. A música é e só poderia ser Under Pressure, do Queen.

Agosto
Difícil. Mesmo que seja este o primeiro adjetivo que eu utilize para definir 2014, acho que é uma palavra que também cabe com precisão para o mês de Agosto. No Brasil, um dos fatos com maior repercussão foi a morte do candidato à presidência Eduardo Campos e de parte de sua equipe, algo que me afetou especialmente. Porque eu trabalhei na campanha dele —por necessidade de grana e para ver se entendia como funciona por dentro essa coisa maluca que é uma corrida presidencial.

Do ponto de vista pessoal, até hoje não sei direito o que me significou a morte dele, já que não tive um minuto de silêncio sequer para entendê-la. O país desabava com o fato e eu, dentro daquela estrutura política completamente insana, deveria ajudar a segurar a onda. Para completar o dia, aquele fatídico 13 de agosto, o grandioso Nicolau Sevcenko nos deixou. Foi um mês catástrófico, pesado, e eu me sentia uma espécie de Atlas, tendo que ajudar a segurar as coisas. Ainda sinto falta do silêncio que não tive naqueles dias. Por isso, a música mais adequada é The Sound of Silence, de Simon & Garfunkel.

Setembro
Se houvesse a possibilidade de contabilizar quantas horas dediquei ao trabalho em Setembro, seria uma quantia que assustaria qualquer mortal. Minha vida era o trabalho, meus amigos eram do trabalho, tudo que se passava na minha vida deveria estar, no menor detalhe, condicionado ao trabalho. Mas não foi algo necessariamente ruim. Eu estava com uma crise aguda de gastrite (decorrente de todas as infecções, viroses, inflamações e outros demônios que vieram desde Janeiro de 2014) e a rotina apolínea me ajudou a organizar meus horários, meus hábitos e tratar com rigor este mal que me acometia. Setembro foi o mês do trabalho. Ainda lembro daquelas cobranças, das cagadas que eu fiz, das pessoas legais que conheci (e das desprezíveis também). Setembro pede Vai Trabalhar Vagabundo, de Chico Buarque.

Outubro
Eleições. Tudo que se passou em outubro tinha algum tipo de relação com as eleições. Não havia uma refeição, uma palavra no jornal, uma conversa com os amigos que não tocasse neste tema. Após junho e julho de 2013, o pleito vinha com grandes esperanças para mim e uma série de pessoas à minha volta. Uma pena, porque, como em outras expectativas de 2014, o resultado das eleições derrubou muitas ilusões. Mas aprendi algumas coisas, como, por exemplo, o quanto algumas pessoas se colocam prafrentex politicamente, têm o desejo do novo e blá blá blá e ZzZzZZZzZzzzz… e, muitas vezes, muitíssimas vezes, se esquecem do que há de mais básico e gritante para se tocar e se resolver. Não dá para engolir a seco tudo que passou. Outubro foi uma porrada forte, para a qual eu respondo com A Internacional, na versão dos Garotos Podres.

Novembro
Novembro foi, talvez, um dos melhores meses de 2014. Mas, não saberia explicar agora, passou como uma flecha, veloz e certeiro. Teve umas oportunidades de trampo bacanas. Conheci uma galera bem massa, tanto do ponto de vista profissional quanto do pessoal. E, se qualquer pessoa que ler este monte de baboseiras aqui perceber bem, vai ver como falo de novembro de uma maneira muito mais mundana e sem precisar de exageros ou quaisquer outros recursos. Foi um mês tranquilo, que comecei indo para Vitória (ES) resolver uns trampos e terminou com minha gloriosa viagem a Cuba. Tudo o que 2014 me tirou, Novembro fez o favor de recolocar de uma maneira bem gostosa. Não faz tanto sentido quanto nos outros casos, mas a música para este mês é Someday, do Strokes.

Dezembro
Quando realizei que 2014 enfim terminaria muito melhor do que começou —percebi isto em Cuba—, não saberia descrever (na verdade não pretendo) com detalhes a emoção que me contagiou naquele momento. Algo emocionante e bonito começou a me tocar e desatei a chorar. Afinal, este ano ardiloso chegaria ao seu fim e —não é um clichê— seria um final feliz. Com minha viagem de 20 dias pelo país de Fidel Castro (mais detalhes em outros momentos), conheci pessoas fantásticas, vivi e revivi experiências formidáveis, senti na pele tudo aquilo que parece que me foi tirado nos primeiros meses deste ano.

Eu termino dezembro muito feliz, ao contrário de como comecei 2014 e cheio, muio cheio, de esperanças para que o ano que vem seja muito maior, muito melhor do que este difícil 2014 que agora está acabando… Como a retrospectiva é minha, e eu faço o que bem entender, queria, por fim, deixar duas músicas para rememorar este mês que fecha de modo maravilhoso um ano terrível.

Queria agradecer, do fundo do coração aos meus amigos, e queria sinalizar com vigor e admiração a todas as pessoas maravilhosas que, primeiro, conheci durante minha viagem de ida e volta à Cuba e, depois, a tod@s aqueles/as que de alguma forma marcaram o meu ano de 2014. Deixo, então, para os amigos With a little help from my friends, na voz do falecido e grandioso Joe Cocker e, para aqueles que simbolizam toda a jornada deste 2014, a música que, para mim, encerra este ano marcante, The Last Goodbye, na voz de Billy Boyd, a canção que encerra o último filme da trilogia cinematográfica de O Hobbit (meu livro favorito, que apesar de ter terminado mal no cinema, encerra com uma música muito bonita).

E por hoje é só, amigos. Que venha 2015!

Anúncios

Sobre Guilherme Zocchio

Jornalista.
Esse post foi publicado em Crônicas e marcado , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s