O Alvorecer dos Deuses

No princípio havia Dionísio, conhecido pelo poder de embriagar os homens e mulheres e enchê-los de uma potência que a vida sana e regrada costuma não permitir aos mortais. Ocorre que, certo dia, era eu Dionísio e tinha diante de mim Afrodite, conhecida como a entidade maior da beleza e semeadora do amor nas suas mais variadas formas e situações. Ou talvez, naquela ocasião, fosse eu Afrodite e houvesse comigo Dionísio.

Sei é que eu me sentia o mais belo dos homens mortais, ao lado da mais bela de todas as mulheres humanas. Na verdade, porém, intercalávamos papéis, pois ora era eu admirado por seus olhos e levado por sua embriaguez, ora era ela que era contemplada e envolvida em meu bacanal.

Em suspensão do mundo terreno, éramos dois seres, duas formas humanas; éramos duas existências, duas possibilidades divinas. Acima, tínhamos apenas o caos na escuridão da noite e a tímida luz da lua; abaixo de nós, porém, um panteão infinito de outros deuses aos quais não permitíamos tal momento de graça se colocava. A Hermes não serviriam os gemidos e sussuros que por ali se passavam; o equilíbrio de Apolo já havia em muito sido desfeito; no escuro, não caberiam as luzes de Zeus; a sabedoria de Atenas jamais teria como explicar o que se sucedia; e tampouco o inferno de Hades ou o mar de Poseidon poderiam dimensionar o infinito que ali se passava.

Nem os heróis mitológicos ou os campeões de outros deuses interfeririam naquele momento. Quando meros humanos em suas vidas terrenas encarnam os deuses, toda e qualquer hierarquia transcendente se desfaz. Nesse momento, somos nós, simples mortais, os autores e criadores de toda e qualquer forma de vida. E celebramos às próprias divindidades às quais nos tornamos.

Naquele momento, roupas arrancadas davam lugar a corpos que se cobriam e se confundiam, tal como o fluxo de vários rios que se atravessam e tornam-se um só.

No auge daquela profanação, por ironia, um terceiro e um quarto seres divinos haveriam de surgir; viriam da vida que transbordava em todas as direções por ali. Os dois corpos seriam, ao fim, não mais Dionísio e/ou Afrodite; transformariam-se, os dois, em Eros e a própria vida em substância para enfim encerrarem seu ritual da forma que se sucede a tudo o que é vivo, como Thanatos, em la petite mort.

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Sobre Guilherme Zocchio

Jornalista.
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