Sem se deixar notar

Timidamente entrou, não sem antes um discreto olhar ao fundo. Em meio àquele corre-corre, vira-vira, treme-treme, range-range, preferiu, então, ficar onde não seria muito notada. Mas já havia sido – embora não por muita gente. Enquanto esperava a hora de cruzar o limite entre os que aguardam e os que pagaram, sentia, como todos, o corre-corre e o freia-freia intercalado pelo bip-bip do trabalho do único que ali se sentava diferente – o cobrador.

Parecia estática. As curvas à direita, a freada brusca, as conversas vindas de trás, todos que iam através do corredor pouco faziam-na se mexer, sequer por curiosidade – provavelmente porque era o verdadeiro alvo desta. Desde que tinha entrado naquele ônibus não possuía ninguém ao lado; talvez, não quisesse ser notada – nem se misturar.

Ela, bonita e jovem, estava de costas a todos os passageiros, menos ao motorista, que estava de costas para ela. Eis que se levanta. Tinha uma blusa branca. Saindo daquele banco à frente resolveu cruzar a catraca. Ou a seu destino chegou ou cansou-se de estar sozinha. Mas sentou-se sem mais ningém no assento preferencial. E de lá, lançou à janela seu olhar – desta vez, porém, não preocupada em ser discreta.

Tornou-se à esquerda, onde estava o vidro, e pôs-se a ver o caminho passar. O devaneio, entretanto, não durou muito. Em pouco tempo algo fixamente lhe tomou a atenção: um garoto. Ele estava sentado também, sentado no banco de passageiro, ao lado de alguém que dirigia um veículo, que, sem demorar muito, no entanto, tomou rumo diferente ao do ônibus. Assim, o olhar da garota teve que se por novamente a ver o caminho passar.

De quando em vez, da esquerda ela puxava discretamente sua vista para trás. Agora havia uma nítida curiosidade por parte dela. Alguém lhe despertava a atenção mais uma vez, talvez porque já reparava nela há algum tempo. E era um garoto, de novo. Um garoto no ônibus – que, antes mesmo dela entrar, já estava lá. Diferente de antes, porém, o olhar dela não se fixava – era superficial, breve, despretensioso até. Quem sabe o que o teria fixado. Ainda assim, ela repetia o gesto com certa regularidade.

Isto durou, porém, apenas até se levantar novamente. Seu destino chegava e ia agora à porta de saída do ônibus. Apertou o botão do sinal e, alguns segundos depois, chegou ao ponto. E assim como veio, timidamente, partiu. Com sua blusa branca, de mochila risca cinza e surrada, sem olhar para trás, sem deixar que vissem mais uma vez seu rosto bonito, com o vento em seus cabelos claros e castanhos, partiu.

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Sobre Guilherme Zocchio

Jornalista.
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