Por uma, duas, ene vezes

Da primeira vez tinha medo. Sem norte e receosa, restou-lhe, portanto, uma aposta: contar com um estranho. O sotaque, tão destratado onde estava, comumente causava aversão a quem dirigisse a palavra. Desse acaso, no entanto, encontrou alguém que não lhe desprezou; e foi, por fim, de muito apreço.

Demonstrava certa fragilidade em meio a um lugar que lhe era novo e parecia, ao mesmo tempo, inóspeto, misterioso, interessante, assustador. Por mérito do estranho, contudo, perdeu força a primeira impressão. Ele a explicou que não precisava se preocupar com aquele lugar àquele horário, poderia esperar mais um pouco e o coletivo logo deveria passar; caso não, havia ainda uma alternativa, a partir da qual teria que rumar uns passos a pé, mas que seria igualmente ou tanto mais tranqüila. Ela agradeceu, mas disse que continuaria a esperar um pouco. Sem muito mais, assim ele a deixou avisada e partiu, porque não poderia, por sua vez, perder o próprio ônibus.

Da segunda vez, o estranho estava cansado. Meio embriagado e desatento, custou-lhe, por isso, perceber: era a mesma moça da outra vez. Instrospectivo, como é comum na própria cidade, preferiu fingir que não a viu. Nesse reencontro, porém, passou a perceber como era bonita; e, mesmo, interessante.

Ficava calado a esperar a condução no canto que lhe era comum e tentou disfaçar que a olhava. Sem muito cuidado, porém, foi reconhecido não muito depois de começar a mirá-la. Ela virava o rosto e erguia a cabeça, como se tentasse ensaiar algum cumprimento, algo que não soasse invasivo a alguém de lugar tão fechado; mesmo sem encontrar a deixa, simplesmente sorria, talvez lembrando da segurança que lhe fora resgatada naquele primeiro encontro entre os dois. Ele tomou um livro a mão, mas logo veio a fechá-lo, já que o seu ônibus passava. Com certo cuidado, tentou subir sem que o vissem, mas perdeu o marca página do livro e estava meio eufórico.

Os dois haviam subido no mesmo ônibus. E se sentaram colados: um de costas ao outro, no entanto. Passado algum tempo, enquanto ele ensaiava se realmente iria cumprimentá-la e ser mais uma vez gentil, ela deu o sinal e desceu no ponto: saiu, com pressa, a pé, descendo a rua. Apreensivo, ele já pensava se talvez se encontrariam ainda uma outra vez, quando então percebeu: esse é o caminho que ele a ensinou: da outra vez, ela havia rejeitado, mas agora resolveu tomá-lo.

E quantas outras vezes mais?

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Sobre Guilherme Zocchio

Jornalista.
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