Cursinho propõe outro modelo de educação

Rede Emancipa, coletivo de educação popular, não se contenta em preparar estudantes de escola pública para o vestibular, quer também ensiná-los a lutar por seus direitos

Por Guilherme Zocchio, de São Paulo (SP)

Em um dia chuvoso, o vão livre do Museu de Artes de São Paulo (MASP) abriga uma variedade de grupos, cada um com sua temática. São ativistas em defesa dos direitos dos animais, mães e pais que cobram medidas em favor de seus filhos com deficiência, organizações que oferecem orientação sobre cuidados com a saúde e até mesmo duas ou mais caricatas dúzias que pedem menos impostos junto ao impeachment da presidenta da República.

Nenhum destes grupos, porém, mostra-se maior, mais organizado ou com tanto desejo de ocupar o espaço quanto a Rede Emancipa de educação popular. Trata-se de um coletivo que congrega uma dezena de cursinhos pré-vestibular, distribuídos por toda São Paulo (SP) e região metropolitana e voltados sobretudo a preparar estudantes oriundos da escola pública para o ingresso na vida universitária. Durante o último sábado, dia 28 de fevereiro, eles reuniram mais de 1.500 pessoas em sua aula pública inaugural, no vão do MASP.

“Somos professores em uma militância pela educação pública e em defesa do acesso ao ensino superior”, define o educador Rubens Pereira da Silva Alves, 23, um dos coordenadores-gerais da Rede Emancipa. Ele se refere a uma comunidade de mais de 3 mil estudantes (total de inscritos nos cursinhos para o ano de 2015), reunidos em unidades que se espalham pela capital do Estado e municípios vizinhos, geralmente em periferias — locais como o Grajaú ou o Capão Redondo, ambos na zona sul de São Paulo, ou até mesmo na cidade vizinha de Itapevi (SP).

Aula inaugural reúne centenas de estudantes no vão livre do MASP (Foto: Guilherme Zocchio)

Aula inaugural reúne centenas de estudantes no vão livre do MASP (Foto: Guilherme Zocchio)

A proposta da Rede Emancipa surgiu em meados de 2007, quando muitos professores do cursinho da POLI —oriundo, por sua vez, do grêmio da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP)— foram contrários à cobrança de mensalidade dos estudantes. A medida, segundo aqueles que foram contra, alteraria a proposta de o pré-vestibular ser um ambiente de apoio a pessoas de baixa renda. Os docentes insatisfeitos então se desligaram e criaram a Rede Emancipa, que realiza suas as aulas sem cobrar nada de seus alunos, contando principalmente com o esforço de seus professores e coordenadores.

Diferente dos outros
“Não somos um cursinho como os outros”, afirma o coordenador Rubens. “A gente prepara para a vida universitária. E a gente também discute como deve ser o caráter das universidades, com cotas [sociais], participação e qualidade de ensino”. Não se trata puramente de revisar o conteúdo para que os egressos da escola pública passem no vestibular, ele explica, mas de agir e ser tal como um movimento social que reivindica melhorias na educação básica e a garantia de acesso ao ensino superior. “A questão é que o Emancipa procura ir além”, acrescenta.

Em sua maioria, o corpo estudantil é formado por jovens que sonham com o tão aguardado, e ao mesmo tempo restrito, acesso à universidade. Buscam alcançar uma etapa da vida à qual apenas 12% dos brasileiros têm acesso, parcela que representa o total de pessoas com ensino superior no país, segundo dados de 2012 da Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílio (Pnad), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Com a ajuda dos professores do Emancipa, são estudantes que estão na luta para alcançar um direito que contempla pouquíssimas pessoas no país.

Os resultados, por sua vez, são evidentes. Entre cada grupo de 100 estudantes, pelo menos 10 são aprovados em alguma universidade de ponta, segundo o levantamento dos organizadores Rede Emancipa a respeito do índice de aprovação no vestibular. Desta proporção, quase três ingressam em instituições públicas de ensino superior.

Mas, ainda mais do que a aprovação nos exames de admissão, a concepção dos integrantes da Rede de Emancipa é, antes de tudo, pedagógica. “A partir do vestibular a gente discute o que significa educação popular, dentro da perspectiva das ideias do Paulo Freire”, explica Cibele Lima, 30, professora de história e também parte da coordenação-geral dos cursinhos. Paulo Freire ficou mundialmente conhecido sua pedagogia do oprimido — grosso modo, a proposta de uma educação com outro tipo relação entre professor e estudante e que partia da experiência prática para incitar os educandos a pensar e a adquirir conhecimento.

Cibele Lima, uma das coordenadoras, conversa sobre o cursinho com os vestibulandos (Foto: Sayuri Kubo)

Cibele Lima, uma das coordenadoras, conversa sobre o cursinho com os vestibulandos (Foto: Sayuri Kubo)

Tudo errado
“[Nos cursinhos da Rede Emancipa] mudamos a forma dos estudantes de enxergar o mundo”, sustenta a coordenadora Cibele. “Tornamo-nos também uma referência de transformação da consciência das pessoas. No fundo é meio que dizer para nossos alunos que tudo que eles aprenderam até hoje estava errado; que a USP também é de direito deles; que mulher não deve ficar em casa; que a educação é sobretudo um direito”, ela acrescenta. E, de fato, quem passou pela experiência dos cursinhos de educação popular reconhece a diferença.

“A escola ensina a gente a ouvir coisas e obedecer. Como você não vê outras possibilidades, acaba seguindo o que a vida te dá”, admite Paloma Holanda, 20, ex-aluna dos cursinhos que sempre estudou em escolas públicas e hoje frequenta a graduação em tecnologia de materiais na Faculdade de Tecnologia do Estado de São Paulo (FATEC), instituição pública de ensino superior.

Para ela, a Rede de educação popular alterou substancialmente a sua visão de mundo. “O cursinho mudou totalmente a minha perspectiva. Eu nunca vou pagar para fazer uma faculdade. É um direito meu estudar em uma faculdade pública”, diz.

O educador Rubens Pereira dá detalhes sobre a pedagogia do Emancipa durante a primeira aula do ano (Foto: Sayuri Kubo)

O educador Rubens Pereira dá detalhes sobre a pedagogia do Emancipa durante a primeira aula do ano (Foto: Sayuri Kubo)

Natali James, 21, também estudante do curso de tecnologia de materiais da FATEC, ex-aluna da Rede Emancipa e das escolas públicas concorda com a colega Paloma. “O cursinho ampliou as minhas ideias”, afirma. Ela diz que as aulas que frequentou no pré-vestibular lhe ajudaram a seguir um caminho diferente de muitas das pessoas com quem estudou nos ensinos fundamental e médio.

“As meninas que eu conhecia estão grávidas. Se não fosse o cursinho, eu estaria na mesma. Ele me ensinou que a vida vai além. Muitos [dos meus amigos] não sabiam que existiam essas opções [de ingressar na vida universitária]”, recorda.

Para ser coerente, contudo, a Rede Emancipa também faz reivindicações sobre políticas de educação. De um lado, pressiona autoridades contra o sucateamento do ensino público e, de outro, articula ações junto a escolas municipais e estaduais para auxiliar alunos com dificuldades, pleitear melhores condições de infraestrutura e, inclusive, tenta se aproximar da direção pedagógica dos colégios próximos das regiões onde oferece o reforço pré-vestibular. Rubens, coordenador do Emancipa, resume todas as questões que tocam ao tema de uma maneira simples: “estudar também é uma luta”.

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Sobre Guilherme Zocchio

Jornalista.
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