Poderia vir de casa

Ao me perder, às vezes parece que não passei mais dez de meus primeiros anos de vida no bairro da Vila Prudente, zona leste de São Paulo (SP). São tantos prédios novos pelas ruas que mal reconheço o pacato distrito onde eu cresci. Nos anos 1990, aprendi, como poucos, a me locomover por entre as pequenas vielas ou as movimentadas avenidas da região.

É certo que, àquela época, ainda não havia metrô pelo bairro. E, sem dúvidas, a chegada das duas estações —Tamanduateí e Vila Prudente— do transporte metropolitano alterou substancialmente o lugar. Mas crescer por aquelas ruas é como aprender a ler e a escrever, uma faculdade como outras que se tornaram parte de mim.

Outro dia, eu subia uma rua sobre a qual ocorreu um encontro de que nunca esqueci. Creio que foi em 2010. Era horário do almoço e eu vinha andando; havia acabado de passar por uma pizzaria e iria cruzar a frente de uma praça, onde uma garota muito bonita se enconstava, sabe-se lá por quê. Simplesmente nos olhamos e sorrimos. Ambos. Ao mesmo tempo. Um para o outro. Fiquei emcabulado e por isso não conversamos. Tímido, segui meu caminho.

Nunca me esqueci, porém, daquela troca —e provavelmente jamais esquecerei.

Hoje mesmo, aliás, aquele encontro me veio à mente, enquanto subia do metrô em direção à avenida Zelina. De minha parte, no entanto, achei que a praça não estava mais lá. Teria dado lugar a uma sui generis loja de bijouterias. Ledo engano. A meia dúzia de novos prédios pela região me confundiu. Corrigi meu caminho. A praça continua lá. A garota, não.

Bem. Na volta para casa, encontrei com outra menina no ponto de ônibus. Tarde da noite. Olhamo-nos. Era bonita. Virei as costas. Distraído, poderia perder a condução. Ela não ficou emcabulada e por isso veio me pedir uma informação. Precisava chegar à avenida Paes de Barros. Ela era realmente bonita. Eu disse que tinha minhas dúvidas, mas que iria conferir no celular. Havia certo afeto entre nós.

Mas não foram só os prédios que alteraram a região. As linhas de ônibus, desde quando eu era criança, já não são mais as mesmas. Outro engano. Minha condução havia chegado. Subi. Falei alguma generalidade qualquer. E me despedi. No caminho, percebi que o ônibus cruzava a avenida Paes de Barros. Fiquei de algum jeito apreensivo com tudo isso, uma espécie de repetição da garota da praça.

Agora, sozinho em casa, ouço os gemidos de prazer de uma menina que ecoam pelas janelas do meu prédio. As coisas se repetem sob a forma da diferença. A menina na praça. A garota no ponto de ônibus. O gemido feminino. Se a Vila Prudente não estivesse tão outra, talvez eu cometeria menos equívocos. Teria sido diferente. Aquele gemido de prazer poderia vir de casa.

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Sobre Guilherme Zocchio

Jornalista.
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