Água ‘de longe’ e falta de saneamento, as fontes da escassez em São Paulo

Acadêmicos e ativistas denunciam poluição de mananciais e pouca vontade política no trato das questões hídricas, durante seminário sobre desabastecimento

Por Guilherme Zocchio, de São Paulo (SP)

A falta de água na região metropolitana de São Paulo (SP) tem história. Isto não significa, entretanto, que se está diante de um fenômeno nunca antes presenciado pela natureza, devido à falta de chuvas ou o excesso de deus, diabo ou o sol. Pelo contrário. A escassez, essencialmente, está relacionada a dois fatores históricos: a busca por reservatórios afastados das áreas abastecidas e a falta de políticas efetivas de saneamento.

Tal percepção sobre a chamada “crise hídrica” é defendida por acadêmicos e ativistas reunidos na última quinta-feira (21) no seminário “Hidronegócio: Para onde vai a água em uma crise construída?”, realizado na Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). O evento é uma iniciativa de entidades, intelectuais e movimentos sociais para formular respostas à urgência dos problemas trazidos pela falta de água na capital paulista.

Integrantes da mesa 'A cara turva da água na metrópole' (Foto: Guilherme Zocchio)

Integrantes da mesa ‘A cara turva da água na metrópole’ (Foto: Guilherme Zocchio)

Para a geógrafa e pesquisadora do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP, Vanderli Custódio, os primeiros problemas relacionados ao abastecimento de água em São Paulo tem origem na forma que se deu historicamente a ocupação da área. “A apropriação humana de áreas onde existem recursos hídricos pode provocar escassez, assim como estamos vendo na região metropolitana”.

Na cidade, a água inicialmente retirada de bicas e mananciais ligados aos rios Anhangabaú, atualmente concretado, e Tamanduateí, hoje coberto de forma parcial por ruas e avenidas, seria de qualidade imprópria.

Por conta desse problema, os governantes do começo até meados do século XVIII iniciaram a busca de fontes nas porções da bacia do rio Tietê mais afastadas da capital, na mesma área onde hoje se encontra o sistema de represas do Alto Tietê. “Historicamente, a gente tem valorizado a busca por águas fora [da cidade] e pouco se preocupado com as fontes próximas disponíveis”, afirma a geógrafa.

Esse processo de captação no local, porém, foi interrompido em fins do século XIX, com a Light, empresa canadense de iluminação. A companhia iniciou obras de barragens no Alto Tietê para produzir eletricidade. Daí surgiu necessidade de encontrar outras reservatórios e assim começaram, no começo do século XX, as primeiras intervenções com o objetivo de captar águas na serra da Cantareira.

Prestes Maia e o saneamento
Paralelo à opção do processo de captação de águas mais afastadas dos núcleos de consumo, a cidade de São Paulo rascunha o primeiro desenho que orientaria a urbanização do município. Trata-se do plano de avenidas elaborado no primeiro mandato do prefeito Francisco Prestes Maia (1938-1945). “Essa foi uma forma de ocupação bastante perniciosa para a cidade, porque encobriu os rios e permitiu a poluição de mananciais”, entende Vanderli Custódio.

O modelo de Prestes Maia, em linhas gerais, orienta até hoje a distribuição de ruas e avenidas na capital. A respeito deste paradigma a questão é que privilegia o rodoviarismo e dispõe a capital de forma radial concêntrica (foto abaixo). “O problema da água não tem nada a ver com uma questão técnica ou ambiental. É, sobretudo, um problema social e político”, observa o professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP (FAU) Alexandre Delijaicov.

Modelo de urbanização proposto por Prestes Maia (Imagem: Reprodução)

Modelo de urbanização proposto por Prestes Maia (Imagem: Reprodução)

No período, para piorar, não se propôs uma política efetiva de saneamento. “O grade problema histórico dos nossos recursos é a poluição. A poluição coíbe o uso das fontes próximas para o abastecimento”, avalia a pesquisadora do IEB. “Isso fez com que esgoto não-tratado fosse despejado direto nas áreas de mananciais”. Um exemplo, segundo ela, é o caso da represa Billings, cuja utilidade para abastecimento está praticamente descartada em São Paulo.

“Estamos à mercê de um modelo urbanista absolutamente cancerígeno e peçonhento, que é este modelo mercantil. Vendemos os leitos dos principais rios da metrópole”, acrescenta o docente da FAU. Para ele, o rodoviarismo proposto por Prestes Maia não só fez com que córregos fossem concretados e nascentes e mananciais destruídos, mas também intensificou a degradação da água no município devido à maior produção de poluentes.

“Em todas as cidades brasileiras, os rios são esgotos a céu aberto. Isso não é natural. Fomos nós que inventamos. Esta é a questão principal”, explica Alexandre Delijaicov. A verticalização da cidade, com a construção de garagens em subsolos, contribui para a destruição de córregos submersos. Mas não só. As águas da cidade também são afetadas pela poluição difusa, produzida pelos resíduos de carros, indústrias e a construção civil.

Jardim Pantanal: da fama à lama
A poluição de mananciais não só impede o uso de reservatórios próximos da capital do estado, mas sobretudo afeta uma parcela da população que é mais vulnerável, geralmente quem é mais pobre. O Jardim Pantanal é um caso que ilustra parte significativa dos elementos históricos, sociais e políticos da chamada ‘crise hídrica’. A área, na zona leste de São Paulo, se estende ao longo do leito e de pequenos afluentes do rio Tietê.

Em evidência na mídia por conta dos problemas de enchente que havia enfrentado entre 2009 e 2010, a região, onde vivem cerca de 6 mil famílias, também reúne indústrias e está próxima de uma central de tratamento da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp). Uma proximidade que, no entanto, não reflete em qualidade nas questões relativas à água para os moradores.

Segundo Ronaldo do Pantanal, integrante do Movimento de Urbanização e Legalização do Pantanal (MULP), é comum o despejo de esgoto e outros resíduos de terceiros nas proximidades de onde vivem as 6 mil famílias. “O esgoto do bairro de Itaim Paulista [também na zona leste] não é tratado e é jogado direto nos córregos próximos do Jardim Pantanal”, denuncia. A questão, de acordo com ele, ainda envolve empresas que estão afixadas no bairro.

“Nenhuma indústria foi advertida ou multada para se adequar às questões ambientais na região”, afirma o integrante do MULP. A ocupação por indústrias e centros de treinamento de clubes, como o Corinthians, na área também colabora para o assoreamento e poluição dos rios que cortam a região.

Grandes empresas, como bancos e até conglomerados de comunicação, assim como fábricas e grandes centros comerciais estão entre algumas das beneficiárias de contratos especiais da Sabesp.

Tais companhias recebem descontos especiais na cobrança das contas de água e esgoto da Sabesp. A lista que contém o nome desses beneficiários foi divulgada por reportagem da edição brasileira do jornal “El País”. Entre algumas dessas empresas estão o Banco Safra, o shopping Iguatemi e a Rede Globo de Televisão.

Para Ronaldo do Pantanal, essa proximidade entre o poder econômico e a Sabesp talvez explique porque, em mais de uma ocasião, denúncias de problemas hídricos no bairro não tenham repercutido na mídia, que se atém a falar dos problemas das enchentes. “Houve um dia que chamamos jornalistas para falar de um problema nas turbinas das usinas de tratamento de esgoto e não houve resposta”, lembra.

Atualidade e ‘crise hídrica’
Mesmo as medidas mais recentes anunciadas pelo governador do estado de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), para lidar com a chamada ‘crise hídrica’ repetem a mesma fórmula de buscar água longe. “A ideia geral é que certas apropriações geram escassez relativa de água. A gente teria em quantidade água suficiente para nos abastecer com as bacias locais”, critica a geógrafa Vanderli Custódio.

Represa do sistema de reservatórios Cantareira, principal atingido pela crise (Foto: Mídia NINJA / Flickr)

Represa do sistema de reservatórios Cantareira, principal atingido pela crise (Foto: Mídia NINJA / Flickr)

Planos como a construção do sistema de represas São Lourenço mantêm a mesma noção iniciada no século XVIII. Em 2017, este projeto prevê captar água nas proximidades do município de Ibiúna (SP), dentro da macrorregião de Sorocaba (SP) e mais uma vez fora da região metropolitana de São Paulo.

“Toda essa crise está baseada na dependência. A gente é muito dependente dos sistemas de fora [da cidade]”, salienta o jornalista Caio Silva Ferraz, autor do documentário “Entre Rios” e diretor do projeto investigativo “Volume Vivo”, que retoma todas as questões mais recentes relativas à chamada ‘crise hídrica’ em uma série de vídeos.

O primeiro capítulo da série pode ser assistido ao final deste texto. Trata-se de um mini-documentário que problematiza a perda gradativa de água do sistema Cantareira (na foto do destaque) nos últimos dois anos, das dificuldades enfrentadas pela população e da pouca transparência dos gestores dos serviços de abastecimento e saneamento de água na cidade. “A gestão de água é uma monarquia que tem que como ferramenta a engenharia e como princípio o lucro”, diz o jornalista.

“No fim das contas, vale muito mais à pena para a Sabesp trazer água de outros lugares do que tratar a água que existe aqui. É muito mais fácil aumentar a oferta do que suprir a demanda”, ele completa.

Um velho filósofo alemão dizia que a história se repete de duas formas distintas: “a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa”. Enquanto torneiras secam e pessoas sentem medo de passar sede, quando já não estão sofrendo com o ‘estresse hídrico’, as políticas de captação e saneamento continuam as mesmas de séculos atrás.

“O poder público sempre atuou aquém das necessidades urbanas desde o tempo do Brasil colônia”, não esquece Vanderli Custódio.

Se amanhã haverá ou não água em nossas torneiras, não é possível dizer. Mais chuvas podem vir, embora seja pouco provável. Creio eu, mero repórter, que neste momento resta ainda outra dúvida: vivemos em meio uma farsa ou uma tragédia? Só a história dirá.

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Sobre Guilherme Zocchio

Jornalista.
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