Plantio de água surge como alternativa durante crise hídrica

Técnicas de manejo do recurso que recuperam nascentes, mananciais e lençóis freáticos são defendidas por especialistas como soluções possíveis

Por Guilherme Zocchio, de São Paulo (SP)

No clássico do cinema ‘Guerra nas Estrelas’ existe um povoado, no remoto e desértico planeta de Tatooine, que se caracteriza por lavrar fazendas de umidade – produzir água, em outras palavras . Essa ideia, que pode parecer apenas mais uma invenção da ficção científica, tem seu equivalente no próprio Brasil. Há realmente formas de cultivar o recurso hídrico. É possível ‘plantar’ água por meio da aquicultura.

Técnicas para preservar nascentes, recuperar lençóis freáticos, em áreas rurais, e facilitar a permeabilidade do solo em áreas urbanas são algumas das possibilidades defendidas por ambientalistas contra novas ‘crises hídricas’. As sugestões surgiram no seminário “Hidronegócio – para onde vai a água numa crise construída?”, na noite da última sexta-feira (22), na Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP).

“A gente tem que questionar uma dimensão da crise que é, justamente, uma percepção que se tem da natureza”, observa a geógrafa Sueli Furlan, professora do Departamento de Geografia da USP. Segundo ela, saberes ancestrais que propõe uma relação de resiliência com os recursos naturais podem ser muito mais efetivos, e sustentáveis, para preservar fontes necessárias para a manutenção da vida humana.

“Para resolver o problema da água, é preciso não fazer nada”, afirma o ecossociólogo Eugênio Giovenardi, fundador da reserva ecológica Sítio das Neves, no Distrito Federal (DF), onde desenvolve técnicas de recuperação de nascentes, mananciais e lençóis freáticos. “Da maneira que estamos fazendo, enchendo de concreto as nossas cidades, só vai piorar a situação”, critica.

Na área de sua reserva ecológica, o ecossociólogo tem, sobretudo, duas preocupações: primeiro, corrigir o desgaste do solo devido aos processos de erosão pela ação humana e, depois, captar águas da chuva. Ele ergue barragens para conter a água, utilizando da areia de cupinzeiros.

A premissa é simples. Eugênio Giovenardi observa o volume das chuvas para perceber a necessidade das intervenções que precisa realizar e então constrói as barragens. Por utilizarem materiais semi-permeáveis, as barreiras permitem que a água se infiltre no solo. Ao mesmo tempo, o recurso é armazenado e pode seguir seu fluxo natural e chegar aos lençóis freáticos.

“A palavra infiltração é essencial para a preservação das nascentes de água”, salienta o ecossociólogo. Como resultado das barragens, ele já conseguiu recuperar uma série nascentes na reserva ecológica que haviam se perdido ao longo do tempo. “Eu produzo água”, afirma. “São pequenas reservas de água. Pode não parecer nada. Mas cem metros cúbicos de água já é muita água”.

Além das barragens que constrói, Eugênio Giovenardi conta com o auxílio da vegetação ciliar, responsável por fixar o solo e permitir que as nascentes, mananciais e lençóis freáticos se recuperem. “Árvores, árvores e mais árvores. É isso o que garante a preservação dos mananciais”, detalha.

Aquicultura com peixes e frutas
Newton Barbosa Campos coordena um projeto de aquicultura na região montanhosa do município de Itapemirim, no Espírito Santo (ES). Ele vivia em uma fazenda que estava desertificada e iniciou o processo de recuperação da área com a construção de pequenos reservatórios, semelhantes aos de Eugênio Giovernardi.

O aquicultor utiliza de caixas secas para armazenar as águas da chuva e consorcia tal estoque com o plantio de diversas espécies de árvores –inclusive eucalipto- para preservar o solo e evitar processos de assoreamento e erosão. “Eucalipto não é vilão. Vilão é quem planta eucalipto de forma errada”, diz, mas alerta: “Antes de plantar a árvore, tem que ter o armazenamento de água”.

Junto das árvores e dos reservatórios de água, Newton Barbosa mantém pisciculturas e fruticulturas que auxiliam no processo. Basicamente, ele cerca nascentes e matas para proteger mananciais. O aquicultor conta que já recuperou 15 hectares de mata ciliar, com o plantio de mais de 6 mil mudas frutíferas e nativas. “A gente tem várias concepções de natureza. Há muitas soluções possíveis”, comenta a geógrafa Sueli Furlan.

O sítio no Espírito Santo tem capacidade de armazenar mais de 20 milhões de litros de água, somente com as técnicas que desenvolveu.“É isso que vocês, paulistas, precisam saber. Precisam reter água na cabeceira dos rios. Precisam armazenar de cima para baixo”, ele sugere.

Como vive numa área montanhosa, Newton Barbosa conta, por experiência própria, que o armazenamento de água da chuva, inclusive, protege locais mais baixos de enchentes e outros problemas. “Há enchente na cidade, porque não há reservatórios nas regiões mais altas para armazenar a água das chuvas”, completa.

Questão de design
“A gente não está vivendo uma crise. Porque a crise se dá em um momento excepcional”, critica o arquiteto Ramon Bonzi, mestre em infraestrutura verde pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU-USP). “O que a gente tem é uma linha contínua que tem muito a ver com o jeito que a gente tem produzido a cidade. Então a crise hídrica, é um crise de urbanização”, acrescenta.

De acordo com o arquiteto, a opção das cidades brasileiras, sobretudo São Paulo (SP), por impermeabilizar solos, erradicar as coberturas vegetais e construir galerias cujo principal objetivo é escoar águas não permitem o uso sustentável da água na cidade. “A crise hídrica é também uma questão de design. O sistema está mal desenhado”, observa.

“Sempre a ideia é de domar a natureza. Nunca de se adaptar a uma estrutura já existente”, ele acrescenta, em referência a uma concepção urbana que entende que deve afastar a relação que o ser humano tem com o natural, ao invés de reaproximá-lo com um sentido de cumplicidade. “A paisagem e a natureza na cidade são fundamentais para o funcionamento”.

Ramon Bonzi sugere que São Paulo poderia se utilizar mais de valetas urbanas, parque lineares, cachoeiras urbanas como forma de alterar a relação que tem com a água. Tais iniciativas partem da premissa de um consórcio com a natureza para o armazenamento e a prevenção de enchentes na metrópole. “Se a gente quer melhorar a nossa relação com a cidade, isso passa por nos reaproximar das nossas águas”.

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Sobre Guilherme Zocchio

Jornalista.
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