Tsarnaev: o demônio de Boston

“Ninguém se lembrará de que os teus professores te apreciavam, que você era divertido e um bom atleta. Cada vez que o teu nome for mencionado, será recordado pelo mal que você fez, e que você assassinou e mutilou”. A declaração é do juiz federal dos Estados Unidos, George A. O’Toole, antes de proferir a sentença do jovem checheno Dzhokhar Tsarnaev, condenado à morte como um dos autores do atentado durante a maratona de Boston.

Proferida numa corte estadunidense, a mensagem do magistrado poderia muito bem remeter a Porfiri Pietróvitch, juiz de instrução e personagem do clássico ‘Crime e Castigo’, de Fiódor Dostoiévski. Pois há um quê de sinistro na afirmação. Mais do que a sentença à morte, a declaração do juiz O’Toole carrega uma profunda crueldade, algo ao contrário da noção que entendemos por Justiça. Não imagino efetividade alguma de promovê-la por meio de uma pena capital.

O magistrado não só prefere a condenação à morte, mas, com suas palavras, enuncia talvez algo pior: quem será Tsarnaev, momentos após o Estado tomar-lhe a própria vida. Ao acusado resta ser uma espécie de “demônio de Boston”. Executada a pena, não lhe será permitido reescrever sua vida, reencontrar seus amigos ou familiares, realizar outros feitos. Seu nome entra para a história “pelo mal que fez”, tal como o anjo, Lúcifer, que caiu do céu.

Antes de tudo, adianto que não me compadeço com Tsarnaev. Do mesmo modo, porém, tampouco consigo me compadecer com as vítimas do atentado. Elas não me eram próximas, não eram meus familiares, não eram meus amigos, não eram meus vizinhos, meus conterrâneos. Eu não poderia ser um os atingidos pelas explosões cuja responsabilidade foi dada ao jovem checheno e seu irmão mais velho, Tamerlan.

Creio que mais do que as consequências do atentado, deveríamos prestar atenção a um tipo de Justiça não só que mata, mas que cria seus demônios. Ao invés de ser o instrumento para restabelecer o equilíbrio na sociedade, é ela própria uma máquina produtora de símbolos de ódio. A fala do juiz federal estadunidense não deixa dúvidas quanto a isso. Repita: “Cada vez que o teu nome for mencionado, será recordado pelo mal que você fez”.

Teu nome será recordado pelo mal que você fez. Você será recordado pelo mal que você fez. Recordado pelo mal que você fez. Pelo mal que você fez. Pelo mal. Que você fez. O mal. Você fez.

Em que pese os pedidos de desculpas e, segundo os veículos de imprensa que acompanharam a sentença, o evidente arrependimento do acusado, não lhe será possível, jamais, dar forma a seu remorso. O resíduo de Tsarnaev será apagado e, após lhe tirarem a vida, restarão apenas as palavras do meritíssimo O’Toole. Palavras claras em dizer que, de toda a história de um homem, tudo o que será contado, tudo o que dela resta, é apenas o mal que ele fez.

As falas de integrantes do júri que decidiu pela pena capital, familiares e outras pessoas ligadas às vítimas do atentado, após a sentença ser proferidas, não deixam dúvidas quanto à efetividade daquilo que estava explícito na fala do juiz. “Ele cuspiu no rosto do ‘sonho americano’, é um covarde e um mentiroso”, afirma um familiar das vítimas. “Tsarnaev optou pelo ódio. Escolheu a destruição, escolheu a morte”, diz outro entre muitas declarações do gênero.

Tsarnaev continuará a ser odiado. E o ódio é, em qualquer sociedade, um afeto poderoso — e temível. No Brasil, torna 87% da população a favor da redução da maioridade penal, de acordo com pesquisa do instituto Datafolha. Nos Estados Unidos, faz com que um terrorista branco promova uma chacina contra a comunidade negra, entre uma série de outros episódios que vez ou outra vemos se multiplicar neste país.

Nada diminui a dor das vítimas do atentado. E qualquer coisa, muito menos, retira a responsabilidade de quem cometeu algo tão bárbaro e cruel. Uma vez que um crime é comprovado, aquele que é seu autor deve sofrer com as consequências do que provocou, de modo que a sociedade consiga restabelecer um estado de equilíbrio. Este é, afinal, o princípio que norteia Justiça, sobre a qual, não à toa, dizem que é cega e aparece representada por uma libra.

Mas não há como encontrar equilíbrio, após executar um homem e erigir, para ele, um monumento de ódio e crueldade. Esse edifício se torna um signo do tecido social e está lá para ser revisitado por tantos outros que o interessarem. O ódio não redime a dor de ninguém. Pelo contrário, fere-a mais uma vez e, assim, alimenta-a. Quando não é assim, o ódio ainda desperta algum tipo estranho, porém real, de empatia. Há mártires para todos os tipos.

Seria melhor para um culpado ser condenado ao esquecimento do que à morte. Esse tipo de condenação, até, seria melhor para a sociedade como um todo. Ao crime, seria preferível apenas o castigo. Nada mais. A morte é um destino para o qual ninguém nunca foi e pode voltar. De castigos a crimes, a dialética pode dar lugar à vida e, a partir daí, algo completamente novo pode se elaborar nas consciências. Sejam nas consciências individuais ou coletivas. Não precisamos de mais demônios.

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Sobre Guilherme Zocchio

Jornalista.
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