Um pouco

Nem mesmo o gritante rangido dos freios do ônibus na rua tira-me de meus pensamentos. Aguardo, no ponto, pela minha condução.

…a vida continua depois de uma reunião de mais um dia no trabalho seguido de outra longa caminhada pela rua até chegar só após muito tempo e enfim conseguir uma pausa que ainda não durara tanto assim devido ao fato que outro compromisso aguardava enquanto também outros mil motivos chamavam para largar tudo e se deixar levar pelo encanto mais tentador que só mesmo um convite para a bebedeira poderia trazer poucos instantes de começar aquele terrível compromisso que por sua vez interromperia meu breve intervalo do dia afinal uma tarefa do trabalho ficou pendente por culpa da noite anterior varada e mal dormida para resolver questões do outro trabalho no qual antes eu encontrasse uma boa companhia para dividir angústias e encantos estes que por vezes custam demais a aparecer com tantas e tantas interrupções repugnantes no dia a dia a exemplo da fome que bate justo agora quando resta um monte de louça que sobrou do café da manhã mal desfrutado por conta do atraso para chegar à aula de hoje da qual pouco é possível concluir algo mais concreto já que a atenção se voltava predominantemente à sala ao lado de onde vinha uma barulho deveras irritante e fazia o tempo parecer passar devagar e devagar e devagar até que alguns traços começaram a se projetar na folha do meu caderno construindo o inconsciente com todas as ânsias e desejos dos porvires que geram incertezas e dos devires que mal se conhece o caminho se tortuoso ou confuso ou ainda íngreme como o da rota para o trabalho do qual sobraram muitas e muitas pendências para amanhã e possivelmente seja melhor deixar por assim mesmo dada essa hora de uma noite de lua cheia muito bonita apesar das dúvidas e angústias e projetos que não cessam de se multiplicar mais e mais e mais e mais e multiplicar mais e mais e mais e mais enquanto ainda há aquele texto para terminar mas que pode também ser por demais narcísico para lhe mostrar amanhã a ela que será que vai se impressionar ou não gostar ou talvez nem dar a mínima bola para tal empreitada em que há tanta energia apaixonadamente despendida…

Uma mão se estende na minha frente. O ônibus acaba de chegar.

— Ooopa! Há quanto tempo. Como você está, companheiro?

— Nossa, mano, que susto! Tô bem e você? Ah, a propósito, obrigado.

— Obrigado?

— Obrigado por me tirar de meus pensamentos. Um pouco.

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Sobre Guilherme Zocchio

Jornalista.
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