A demasiada humana sensação de dor

Há um sentimento humano, demasiado humano, do qual se esquece em toda a profusão de análises sobre os dias de hoje. Trata-se da dor, fisiológica e primitiva em suas causas, em seus efeitos. Tão simples, porém, creio que nunca antes foi tão alçada próxima do irrelevante.

Mesmo para quem apresente maior tolerância a ou quiçá sinta certo prazer nela, a dor é um dos principais sinais do sofrimento. Por toda a história, procuramos formas de lidar com algo tão indissociável do fato de se estar vivo.

E há, sem dúvidas, formas e jeitos os mais variados de sentir dor. Dor no peito, angústia; dores nos ombros, tal qual Atlas com o mundo em suas costas; dor de garganta, das palavras entaladas; dor no estômago, a gastrite daquilo que não se consegue digerir; dor do luto ou da partida, saudades…

Com efeito, é muito simples sentir a dor, reconhecer a presença dela em nossos corpos. Não é tão simples, no entanto, o necessário ato de lidar com a dor. Para isso há, igualmente, vários jeitos e formas.

Gostaria de destacar duas maneiras que me parecem mais recorrentes: a ira e por falta de outro termo melhor vou definir a segunda como compaixão. Vejo a primeira como afeto talvez inerente ao fato de sentir dor, como reação comum de quem sofre e tenta livrar-se de tal. Vejo a ira como afeto primeiro do sujeito em que dói.

O segundo afeto, a compaixão, é um devir: procurar ou reencontrar no outro a cicatriz de uma dor que já se sentiu, ou no mínimo o esforço no sentido de compadecer com o sofrimento de outrém. A compaixão me parece que necessariamente precisa vir de outro, de fora.

A ira, como se pode deduzir, pode ser um ponto de partida para se catalisar outro afeto, muito bem identificado pela maioria das análises que estão circulando por aí, o ódio. A possibilidade da dor como originária do ódio, por outro lado, não se fala.

Pergunto se não estaria na dor, evoluída em ira e depois em ódio, a origem de alguns dos bárbaros atos cometidos nos últimos dias? Para ser direto: talvez não seja a dor que leva alguém a aderir a um grupo tão brutal quanto o Estado Islâmico? Elevo ao máximo o tópico que apresentei.

Por outro lado, não seria a falta de compaixão que permitiria a evolução da dor em algo tão destrutivo como o ódio?

A indiferença frente a dor de outros de pessoas com possibilidades mil de abstrair a sua dor prória no dia a dia não facilitaria a explosão de atos de ódio os mais variados em outros locais?

Há indivíduos que vivem suas vidas de acordo com os planos que traçaram sem dar a mínima para o sofrimento às vezes de um amigo ao lado. Trata-se daquele grito que é censurado, daquele choro do qual se debocha, da falta de um mínimo esforço em olhar para as dificuldades do outro.

Há estados que se orgulham do bem-estar social indiferentes às bombas que caem e dizimam populações inteiras ou também à especulação e à ganância que corroem o mínimo de garantias nos seus próprios vizinhos.

Nesse sentido, a dor, no início de uma cadeia de acontecimentos orientados pela ira e pelo ódio, provoca mais dor na outra ponta. Claro que tal linha também é atravessada por uma série de outros traços: sobretudo, e nessa ordem de importância, pela política e pela moral.

A insensibilidade para a dor, o ato de negar ou não se permitir compadecer, também tem mais formas.

Quantos homens vão contra os direitos das mulheres sobre o próprio corpo, quando do alto da arrogância e pré-potência se sentem como autoridade para opinar sobre uma gestação? O quanto não ignoram da dor de um parto ou de decisões que, no cerne, não os competem de modo direto?

Neste 20 de novembro, o quanto se tenta lembrar da dor de pessoas que, apesar de serem maioria da população no Brasil, mal lhes é garantido um mínimo de direitos? Ou então, da dor de carregar no corpo as marcas de mais de quase quatrocentos anos de escravidão?

Sobram exemplos em que a mínima reflexão, a mínima alteridade, sobre a dor passa longe demais de qualquer percepção acerca de vários temas. Quem sabe, seria este um sinal do quanto nos embrutecemos, cada dia mais, cada vez mais rápido, com a velocidade dos tempos. Espero estar enganado.

Por outro lado, parece oportuno retomar uma alegoria que o escritor estadunidense David Foster Wallace usou certa vez. Ele falava de dois peixes imersos em um aquário que não se dão conta do elemento mais óbvio e fundamental que os mantêm vivos ao redor: a água.

Após desenvolver a respeito, ele então escreve: “A verdade com V maiúsculo diz respeito à vida antes da morte. […] Diz respeito à consciência –consciência de que o real e o essencial estão escondidos na obviedade ao nosso redor– daquilo que devemos lembrar, repetindo sempre: ‘Isto é água, isto é água’“.

Aproprio-me de Wallace, enfim, para que tomemos a mesma consciência atentos ao fato que muitas vezes à nossa volta “isto é dor”.

Anúncios

Sobre Guilherme Zocchio

Jornalista.
Esse post foi publicado em Crônicas, Ensaios e marcado , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s