O legado do nome de Umberto Eco

“Like the pine trees lining the winding roads / I’ve got a name, I’ve got a name / Like a singin’ bird and a croakin’ toad / I’ve got a name, I’ve got a name”
(‘I Got a Name’, Jim Croce)

Do vasto legado intelectual que Umberto Eco deixou, após falecer na última sexta-feira (19), as considerações sobre o nome –isto é, ao ato de “se chamar” ou possuir um substantivo próprio para referir-se a si e pelo qual os outros o conhecem– creio que estão entre as mais fascinantes linhas de fuga de sua obra.

Em “O Nome da Rosa”, o autor retoma uma passagem do poema “De Contemptu Mundi” (“Do desprezo do mundo”), de Bernardo de Cluny, monge beneditino do século XII: “stat rosa pristina nomine, nomina nuda tenemus“, cujo equivalente em português seria mais ou menos “a rosa antiga está no nome, e nada nos resta além dos nomes”.

Umberto Eco, em retrato de 1984 (Foto: Rob Bogaerts / Anefo / Wikimedia)

Nada nos resta além dos nomes. A consideração pode parecer óbvia, mas também pode ser explorada mais a fundo. Todo nome carrega, em si, algo antes, durante e depois que o título está cunhado. Além de referências a nossas famílias ou antepassados, o nome produz efeito. É marca de uma ou mais existências.

Que me permitam um relato pessoal. Em um momento ruim de minha vida, eu iria me encontrar com uns amigos, que, por sua vez, apresentaram-me outros amigos. O que seria mais um evento de uma rotina que parecia não ter escapatória sofreu, então, um pequeno assalto.

“Eu sei quem é você. Guilherme Zocchio”, disse-me uma amiga de uma amiga. Ela não apenas me conhecia, mas o fato de dizer meu nome sinalizava outra coisa: aquele conjunto de duas palavras, para ela, teria algum significado, em certa medida. E, a partir de um gesto tão simples, tão mágico, ela, sem querer, lembrou-me das poucas porém preciosas coisas que Guilherme Zocchio construí. Epifania decivisiva para superar aquela tormenta.

(Nunca tive a chance de agradecer ou lhe falar disso. Mas espero que algum dia saiba do bem que fez de uma maneira tão singela. Ela foi incrível!)

O nome é a expressão mais única de nossa individualidade. Mesmo aquelas pessoas que possuem homônimos têm também um apelido, uma grafia, quiçá um jeito de pronunciar a si que diferencia o fato de repetir com outras pessoas as mesmas vogais e consoantes pelas quais se chamam.

Por ser esse fundamento tão decisivo da individualidade, o nome representa também a liberdade. Enquanto estão vivos, e há certa maneira de pensar a qual entende que um título nunca está definitivamente morto, nomes são, em si, potências.

Os versos da epígrafe deste texto compõe uma das mais significativas passagens de “Django Livre” (“Django Unchained“), de Quentin Tarantino. A cena ocorre momentos após o protagonista conquistar a liberdade, com documentos oficiais que comprovam que ele não é mais um escravo, roupas novas e uma perspectiva de futuro.

A síntese de tais conquistas, Tarantino sugere, está nos versos da música de Jim Croce: “I’ve got a name, I’ve got a name“.

Essa dualidade de, ao mesmo tempo, carregar o passado e apresentar o futuro está ligada, ainda, a contextos sociais e políticos. Daí, a importância de circular os nomes de vítimas e algozes da tortura e violações aos direitos humanos durante a ditadura militar no Brasil, por exemplo. Se tais nomes caírem em esquecimento, como poderá a sociedade brasileira encarar fantasmas como o estado de violência permamente que vive?

Nada, portanto, resta-nos além dos nomes. Do nome de Umberto Eco, haveria, ainda muito mais a falar e escrever. O corpo pode não ter resistido ao passar dos anos, mas seu nome continua, com uma produção intelectual que se mantém viva. Trata-se de um nome, com o perdão do trocadilho, que permanecerá ecoando, em vida, por muito, mas muito tempo, entre minhas considerações fugazes e as do autor, eternas.

Anúncios

Sobre Guilherme Zocchio

Jornalista.
Esse post foi publicado em Crônicas, Ensaios e marcado , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s