(sem título)

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Esta história acabou. E, constatado isso, começo por um ponto final. Inicio por onde um texto deveria terminar, escrevo um prelúdio que, a princípio, pode soar como paradoxo. Não o é, contudo. As mesmas palavras, o mesmo aforismo, com que abro este parágrafo se repetem idênticas desde esta manhã, desde o primeiro nascer do sol após dizê-las pela primeira vez. Esta história acabou. E, se não houvesse acabado, eu jamais teria de onde começar este texto, três palavras em ordem direta; oração de período simples; pronome, substantivo, verbo; pretérito perfeito; fim.

Noite passada, vi-me obrigado a admitir para meu amigo à mesa do bar. Insistia ele em dizer que ainda haveria o que escrever, quiçá um novo capítulo em aberto. Tive de lembrar: esta história acabou. E assim o final tornou-se verbo pela primeira vez –embora só nessa manhã, enquanto a frase ecoa em minha cabeça, eu realize, enfim, que a última pedra sepulta o lugar onde antes houve o amor. Companheiro!, ele resiste à sórdida conclusão. Tenta me convencer de qualquer alternativa. Eu repito, portanto: esta história acabou. Já não existe mais espaço naquela carta que, escrita à tinta mas despedaçada em três, nunca encontrou destinatário.

Sem título, eu dizia…

…a fragrância da moça bonita que passa por mim tem o seu mesmo cheiro de outrora. […] Cada passo meu em sua direção são dois seus no mesmo sentido. Cada vez mais longe. E longe, e longe… Sobram motivos para se afastar na medida em que faltam para me ver. Queria, preciso, te encontrar. Ver-te sorrir. Ouvir os murmúrios entre nós. Tocar seu corpo com toda a vontade que só para ti eu guardava. Experimentar seus gostos, humores doce e amargo. Cheirar teu perfume quando se mistura ao meu. Queria tudo isso mais uma vez.

[…] Agora, contudo, imagino que estejamos mais e mais e mais e mais e mais distantes. Não consigo uma desculpa razoável para mantermos sequer um diálogo. […] Eu mal tenho como seguir em frente. Quem sou eu sem esta história? […] Me desculpe as tolices, desculpe, por favor, as brigas, meus fantasmas, o horror do fundo do abismo. Ainda lembro dos seus olhos quando falava “da gente”.

[…] Esse mistério, seu mistério, sempre me cativou. Lembro dos seus ombros, do gosto deles; da minha boca deslizando, te beijando para eu enfim dizer o quanto são bonitos. De como eu me apaixonei também por eles. […] Jura que sentiu minha falta. [….] Sinto muito. Por tudo. Por esta carta. Pelos machucados, os meus e os que te causei. Sinto mesmo…

Palavras inócuas, guardadas por dois anos no fundo de uma gaveta embolorada com a esperança de que ali, enfim, fossem esquecidas. Releio-as e, agora, reconheço nelas apenas o valor literário. Não há razão, ou desrazão, para remetê-las, haja que o aforismo se repete em meus ouvidos: esta história acabou. Parágrafo por parágrafo, impressiono-me com a intensidade do que ali esteve retido, à tinta preta, em letras corridas. Não foram poucas as oportunidades de tentar reverter o infortúnio, o fato de que uma terceira pessoa, não destinatária, rasgou, sem o mínimo direito, a carta escrita à mão. Contudo, esta história acabou. E, ao raiar do sol, realizo a sutil beleza que são os últimos grãos da ampulheta da existência de um amor.

Sigo pelas vias da cidade. As paredes coloridas, as coberturas dos prédios, as largas e espaçosas calçadas, os pontos de ônibus e as estações de metrô, saturadas de lembranças. Memórias, entretanto, sem alegria ou tristeza. Recordações de vidas que por ali passaram e, hoje, percorrem, cada uma, seu caminho. A rua da tua casa, apenas mais do cimento e asfalto que ocupam a vizinhança. O muro onde nos jogamos abraçados com as mãos perdidas dentro das roupas do outro, tijolos e tinta branca. Persistem as flores na copa da árvore frondosa embaixo da qual nos perdíamos em discussões. A história, porém, acabou.

Quem sou eu sem esta história? De certa forma, a dúvida persiste. Não é impertinente. Duvidar nunca o é; nunca o foi. Incertezas me fizeram constatar o fim. Despertam mais dúvidas, entretanto. Quem acabou? Quando? Onde? Como? Por quê?

O vento, carregado do sereno da noite, contra o meu rosto. Quem sou eu? Um vulto de casaco negro. Caminho pelos corredores de um antigo convento paulistano, prédio velho onde uma cruz sabe de segredos, sussurros às sombras do pátio de um deus-qualquer-todo-poderoso. Ventania. Eu falava de ombros. Miro um ombro esquerdo para fora do decote de um delicado vestido. Pele fina, poros arrepiados, pelo frio, pela lembrança de lábios que descem pelo cangote desde a orelha. Embebem. Sujam. Escorregam. Cessam. Dois rios inteiros. Afastam-se. Olham-se. Então se beijam.

Na profundidade dos olhares, em uma infinidade de pessoas, descubro reminiscências. Esta história acabou, mas já se diz: de tudo fica um pouco. Fragmentos perdidos, ora oblívios, ora lembranças. Nos olhos de outras pessoas encontro outras partes do universo dentro do qual me perdia. Astros e corpos celestes, a cada olhar. Constelações inteiras. Escuridões. Buracos negros, tão mais profundos quanto maior a intensidade do devir. Se, enfim, esta história acabou, outras devem ter início. E, portanto, agora outro começo eu hei de escrever:

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Sobre Guilherme Zocchio

Jornalista.
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