Das peças que o desejo prega, ou da arte de inventar escritores

Vem cá, disse-me n’outro dia um amigo meu. Ele precisava de conselhos, saber como lidar com as contingências da vida. Queria certificar-se de que não estava enganado, a hora, pois, era dessas em que não se sabe muito o que está se passando.

Há algum tempo, ele se deparava com uma garota na rua. Trocavam olhares enquanto seguiam em sentidos opostos. Encontravam-se nas mesmas esquinas, caminhavam pelas mesmas faixas de pedestres, seguiam por baixo dos mesmos semáforos.

Ele gostaria de tentar contato. Perguntava-me se poderia haver interesse da parte dela. Duvidava se tudo não seria mera peça de ficção, dessas que o desejo costuma nos pregar.

Lembrei-lhe que o método é simples: uma dúvida só é sanada se colocada à prova. Ele precisava agir. E eu sugeri que um livro seria uma forma amistosa de iniciar diálogo.

A boa literatura rende conversas que tendem ao infinito, afinal, livros são, além de outras coisas, infindáveis manuais de “como conversar com alguém”.

Camembert. Era o que ele me dizia. Tão logo conversamos, e ele me assegurou que a garota segurava um livro com este autor. A gradação, então, prosseguiu: Camembert, França, literatura, filosofia.

O caminho estava certo. Eu disse que já passava da hora de ele ler tudo do tal do autor francês que transitava na porosa fronteira entre literatura e filosofia.

Foram dias de busca. Bibliotecas, Google, redes sociais… Ele nada encontrava. Não sabíamos por que, mas as palavras Camembert, França, literatura e filosfia, juntas, não indicavam nada.

Fracassamos.

Enquanto isso, eu me desculpava por não ser um bom conselheiro.

Na ocasião seguinte em que ele encontrou a garota, ela estava com o namorado. Parecia recente, ele me dizia, entristecido.

Tudo, portanto, não passava de obra de ficção do desejo. Esta história era, enfim, uma grande mentira.

A bem da verdade, então devo dizer, meu amigo nunca encontrou a garota na rua. Ambos trabalham a algumas baias de distância, comigo, sim, no mesmo escritório.

No entanto, ele realmente veio me pedir conselho, já que havia, sem querer, dado um like na garota em um desses aplicativos de encontro virtual. Meu amigo nunca teve o menor interesse por ela e temia a possibilidade de o fato gerar algum constrangimento.

No aplicativo, o perfil da menina dizia: “adoro Camembert”. E da constatação vieram equívocos como “eu, se fosse você, leria tudo do Camembert”.

Imaginei eu, porém, o que seria se esta história desenrolasse. Por que não se deixar levar por uma peça de ficção? A boa literatura tende ao infinito. E, com frequência, a verdade das coisas é desinteressante demais.

Ah!, para quem não sabe, como eu não sabia, e daí a origem desta história, Camembert é um queijo e, até onde se sabe, nunca escreveu literatura ou filosofia. Pelo menos, até agora.

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Sobre Guilherme Zocchio

Jornalista.
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