Logan: uma distopia de alerta

Se há algo que eu recomendaria assistir hoje nos cinemas, este seria Logan (James Mangold, 2017). Mais do que um filme de herói, sobre Wolverine, o mutante batizado com o nome que dá título à obra, o longa resgata um tema que é fundamental em toda o universo de HQs dos X-Men, a saber, a questão das minorias. Neste mundo, ser mutante, portanto minoria, corresponde aos mesmos estigmas, e problemas semelhantes, a que vemos ao tratar das minorias do mundo real.

O longa se passa em 2029, depois que os mutantes, por uma sucessão de eventos, foram eliminados ou estão desaparecidos, uma distopia de alerta, constatados a crescente de discursos xenófobos, políticos nacionalistas e da decadência dos paradigmas da globalização e do multiculturalismo nos dias de hoje. Neste futuro perigosamente próximo, os mutantes que restam se escondem ou tentam levar uma vida à margem do dia a dia comum, sem que sejam identificados e, assim, perseguidos.

Charles Xavier (Patrick Stewart) e Logan (Hugh Jackman) no filme (crédito: Divulgação/Fox Film)

Logan, tendo nascido com mutação que regenera seu corpo com velocidade e o retarda o envelhecimento, torna-o não só um sobrevivente do cataclisma dos mutantes, como um homem que já viveu mais do que qualquer outro sobre a terra —nos quadrinhos, estima-se que ele tenha nascido entre meados e final final do séc. XIX. Hugh Jackman, no papel principal, após interpretar Wolverine por oito vezes no cinema (nove com “Logan”), sobra ao interpretar uma existência que carrega angústias, desilusões e dores de um homem que viveu quase dois séculos, perdendo entes queridos e sentindo devagar o passar do tempo.

O temido Wolverine de outrora agora dá lugar a um Logan no limite de despedaçar psicologicamente, dopado com analgésicos e sempre acompanhado de uma garrafa de uísque. No único laço afetivo que mantém, cuida da única figura que já teve mais próxima de um pai, o antes visionário e militante, mas no momento velho e demenciado, professor Charles Xavier (Patrick Stewart, que está brilhante), mutante com poderes psíquicos, e um dos idealizadores e principal líder dos X-Men, que lutou a vida inteira pela tolerância e convivência pacífica entre humanos mutantes e não-mutantes.

Nonagenário, Xavier é o símbolo dos sonhos que, alcançada a distopia, envelheceram. Um “pai” que, em certo momento, ouve do “filho” Logan: “Charles, o mundo não é mais o mesmo”.

Afinal, o mundo, além de sufocar os mutantes, persegue refugiados, assedia tradicionais famílias de agricultores para defender o monopólio da produção rural de transgênicos e, mais do que nunca, funciona inescrupulosamente com o lobby de grandes empresas sobre agentes de Estado. Entre os antagonistas está um jovem descolado, com modificações corporais, tatuagens, branco e com sotaque de redneck (alguém pensou em um eleitor de Donald Trump?), que trabalha para um laboratório de pesquisas genéticas, perseguindo os mutantes que restam e fazendo qualquer coisa para cumprir seus trabalhos, assediando policiais e submetendo todos à sua, ou melhor, à vontade de seus patrões.

Nem tudo está perdido, porém. Um encontro abre a contingência necessária para que a situação mude. Uma menina com o mesmo tipo de mutação de Logan, Laura (Dafne Keen), vai ao encontro dele e de Xavier. À medida que a história da jovem vai se desenvolvendo, entre perseguições, fugas, lutas, violência e mortes, mas muitas mortes, o novo vai se revelando. O angustiado Logan, então, vai tentando, ao lado de Xavier, reencontrar uma forma de sobreviver com dignidade e tentar projetar outro futuro.

Sobre a violência, faço uma crítica necessária, já que, por mais que seja elemento fundamental da existência do próprio personagem Wolverine, portanto inescapável a qualquer história a respeito dele, torna-se performática e exagerada demais. A violência extrapola o argumento do filme, ao colocar crianças com não mais do que 12 anos, matando, morrendo, sangrando e expostas a qualquer tipo de atrocidade. Na minha opinião, erro grave que limite o longa a ser apenas um bom filme, e não “obra-prima”.

Quem se interessar, pode se contentar por enquanto com o trailer que coloco abaixo, acompanhado da música “Hurt”, originalmente dos Nine Inch Nails, mas aqui na versão que foi imortalizada por Johnny Cash.

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Sobre Guilherme Zocchio

Jornalista.
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